Literatura
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Conto: O Pássaro-do-Sol – Neil Gaiman

 

firebird.jpgO Clube Epicuriano, naquela época, era uma turma divertida e barulhenta. Eles sabiam mesmo farrear. Eram cinco: Havia Augustus Duas Penas McCoy, que tinha o tamanho de três homens, comia por quatro e bebia por cinco. Seu bisavô fundara o Clube Epicuriano com a renda de uma tontina da qual se esforçara muito, à maneira tradicional, para ser o beneficiário.

Havia o professor Mandalay, baixinho, nervoso e cinza como um fantasma (e talvez fosse um fantasma — coisas muito estranhas já aconteceram), que só bebia água e comia porções minúsculas em pratos que pareciam travessas. Tudo bem, para isso não é preciso ter interesse em gastronomia, e Mandalay sempre chegava ao âmago de cada prato colocado à sua frente.

Havia Virgínia Boote, a crítica de restaurantes, que já fora dona de grande beleza, mas agora era uma ruína solene e magnífica, e se deliciava em sua derrocada.

Havia Jackie Newhouse, descendente (de maneira duvidosa) do grande amante, comilão, violinista e duelista Giacomo Casanova. Assim como seu famoso ancestral, Jackie Newhouse já tinha partido um sem-número de corações e devorado um sem-número de grandes pratos.

E havia Zebediah T. Crawcrustle, o único epicuriano que não tinha um tostão: ele vinha da rua para as reuniões do grupo, com a barba por fazer e uma garrafa de bebida barata num saco de papel pardo, sem chapéu, sem, sobretudo e, muitas vezes, quase sem camisa, mas comia com mais apetite do que todos os outros.

Augustus DuasPenas McCoy estava falando…

— Já comemos tudo o que pode ser comido — disse Augustus Duas Penas McCoy, e havia tristeza e um leve sofrimento em sua voz. — Comemos abutre, toupeira e morcego frugívoro.

Mandalay consultou seu caderno:  — O abutre tinha gosto de faisão podre. A toupeira tinha gosto de caramujo da carniça. O morcego frugívoro, surpreendentemente, lembrava porquinho-da-índia doce.

— Comemos kakapo, aye-aye e panda gigante…

— Oh, aquela bisteca grelhada de panda — suspirou Virgínia Boote, e sua boca se encheu d’água com a lembrança.

— Comemos várias espécies há muito extintas — observou Augustus DuasPenas McCoy. — Comemos mamute e preguiça gigante da Patagônia congelados.

— Se tivéssemos conseguido o mamute um pouco antes — queixou-se Jackie Newhouse.

— Mas deu para entender por que os elefantes peludos sumiram tão rápido depois que as pessoas os provaram. Sou um homem de gosto refinado, mas, depois da primeira mordida, só conseguia pensar no molho barbecue de Kansas City e no sabor que a costela daquele bicho teria se estivesse fresca.

— Não há problema nenhum em ficar no gelo por um ou dois milênios — comentou Zebediah T. Crawcrustle. Ele sorriu. Seus dentes podiam ser desalinhados, mas eram afiados e fortes. — Mesmo assim, se você quer sabor de verdade, precisa degustar o bom e velho mastodonte. As pessoas comem mamute apenas porque não conseguem um mastodonte.

— Já comemos polvo, polvo gigante e polvo descomunal — continuou Augustus Duas Penas McCoy. — Comemos lemingues e tigres da Tasmânia. Comemos ave-do-paraíso australiana, sombria e pavão. Comemos o peixe golfinho (que não é o golfinho mamífero), a tartaruga marinha gigante e o rinoceronte de Sumatra. Já comemos tudo o que há para comer.

— Bobagem. Há muitas centenas de coisas que ainda não provamos — retrucou o professor Mandalay. — Milhares, talvez. Pense em todas as espécies de besouros que existem e ainda não comemos.

— Oh, Mandy — suspirou Virgínia Boote. — Quem já provou um besouro, já provou todos. E todos nós degustamos várias centenas de espécies. O rola-bosta, pelo menos, tinha um gosto bem marcante.

— Não — interveio Jackie Newhouse -, as bolinhas de bosta é que tinham. O besouro mesmo era particularmente sem graça. Mas aceito o seu argumento. Nós escalamos os píncaros da gastronomia, mergulhamos nos abismos da degustação. Tornamo-nos cosmonautas, explorando mundos jamais sonhados de sabor e comilança.

— E verdade, é verdade — concordou Augustus Duas Penas McCoy. — As reuniões mensais dos epicurianos vêm acontecendo há mais de 150 anos, desde a época do meu pai, do meu avô e do meu bisavô, e agora temo que seja necessário parar, porque não resta mais nada que nós, ou nossos antecessores no clube, já não tenhamos comido.

— Eu queria ter vivido nos anos 1920 — lamentou-se Virginia Boote -, quando a lei permitia que Homem constasse do cardápio.

— Mas só depois de ter sido eletrocutado — observou Zebediah T. Crawcrustle. — Já estava meio frito, chamuscado e crocante. Não deixou em nenhum de nós uma predileção especial pelo leitão bípede, a não ser em um sujeito que já tinha essa inclinação, e, de qualquer forma, nós acabamos com ele em poucos minutos.

— Oh, Crusty, por que você sempre finge que estava lá? — perguntou Virginia Boote, bocejando. — Qualquer um pode ver que você não é tão velho assim. Não deve ter mais de 60 anos, mesmo levando em conta os efeitos do tempo e da vida ao relento.

— Os efeitos são profundos, sim — respondeu Zebediah T. Crawcrustle -, mas não tão profundos quanto você imagina. De qualquer forma, existe uma infinidade de coisas que ainda não comemos.

— Cite uma — pediu Mandalay, com seu lápis pronto sobre o caderno.

— Bem, há o Pássaro-do-Sol da Cidade do Sol — revelou Zebediah T. Crawcrustle. E ele abriu seu sorriso desalinhado, com seus dentes irregulares, porém afiados.

— Nunca ouvi falar — comentou Jackie Newhouse. — Você que inventou.

— Eu já ouvi falar — intercedeu o professor Mandalay -, mas em outro contexto. Além disso, é um ser imaginário.

— Unicórnios são imaginários — observou Virginia Boote —, mas, meu Deus, aquele lombo de unicórnio ao molho tártaro estava delicioso. Lembrava um pouco cavalo, um pouco bode, e ficou ainda melhor com alcaparras e ovos crus de gralha.

— Há uma menção ao Pássaro-do-Sol numa das minutas do Clube Epicuriano de muitos anos atrás — disse Augustus DuasPenas McCoy. — Mas não lembro mais o que dizia.

— Falava do sabor dele? — perguntou Virginia.

— Acredito que não — respondeu Augustus, franzindo o cenho. — Eu precisaria verificar nos tomos encadernados, é claro.

— Isso está nos volumes chamuscados — lembrou Zebediah T. Crawcrustle. — Nos tomos encadernados você não vai encontrar nada sobre ele.

Augustus Duas Penas McCoy coçou a cabeça. Ele tinha realmente duas penas, que atravessavam o coque de cabelo preto com fios prateados em sua nuca, e as penas já tinham sido douradas, embora agora parecessem meio normais, amarelas e esgarçadas. Ele as  recebera quando criança.

— Besouros — contou o professor Mandalay. — Uma vez, calculei que, se um homem como eu resolvesse comer seis espécies diferentes de besouro por dia, levaria mais de vinte anos para provar todas as espécies já identificadas. E, nesses vinte anos, novas espécies de besouro teriam sido descobertas em número suficiente para mantê-lo comendo por mais cinco anos. E, nesses cinco anos, novas espécies seriam descobertas para mantê-lo comendo por mais dois anos e meio, e assim por diante. E um paradoxo de inesgotabilidade. Eu o chamo de Besouro de Mandalay. Mas seria preciso gostar muito de besouros — acrescentou -, senão seria péssimo.

— Não vejo nenhum problema em comer besouros, se forem do tipo certo — comentou

Zebediah T. Crawcrustle. — No momento, estou com vontade de comer vaga-lumes. O brilho de um vaga-lume dá um frisson que pode ser o que estou precisando.

— Embora o vaga-lume, ou pirilampo (Photinus pyralis), seja mais um besouro do que uma larva luminosa — observou Mandalay -, ele não é de forma alguma comestível.

— Pode não ser comestível — retrucou Crawcrustle. — Mas deixa você no ponto pra outras coisas que são. Acho que vou assar alguns. Vaga-lumes com pimenta de Havana. Delícia.

Virgínia Boote era uma mulher fundamentalmente prática. Ela disse: — Suponham que quiséssemos comer o Pássaro-do-Sol da Cidade do Sol. Por onde deveríamos começar a procurá-lo?

Zebediah T. Crawcrustle coçou a barba de sete dias que estava despontando em seu queixo (não crescia mais do que aquilo — a barba de sete dias nunca cresce).

— Se fosse eu, iria pra Cidade do Sol numa tarde de verão, procuraria um lugar confortável pra sentar, o café de Mustafá Stroheim, por exemplo, e esperaria que o Pássaro-do-Sol aparecesse. Aí eu o capturaria do jeito tradicional e o assaria do jeito tradicional também.

— E qual seria o jeito tradicional de capturá-lo? — perguntou Jackie Newhouse.

— Ora, o mesmo que seu famoso ancestral usava para caçar gralhas e tetrazes selvagens —  respondeu Crawcrustle.

— Não há nada nas memórias de Casanova sobre caçar gralhas — retrucou Jackie Newhouse.

— Seu ancestral era um homem ocupado — observou Crawcrustle. — Era impossível que ele anotasse tudo. Mas caçava muitas gralhas mesmo assim.

— Com milho seco e passas de mirtilo embebidas em uísque — lembrou Augustus Duas Penas McCoy. — Minha família sempre fez assim.

— E Casanova também — disse Crawcrustle —, só que ele usava grãos de cevada misturados com uva passa, e embebia as passas em conhaque. Ele mesmo me ensinou.

Jackie Newhouse ignorou essa declaração. Era fácil ignorar muito do que Zebediah T. Crawcrustle dizia. Jackie Newhouse perguntou:

— E onde fica o café de Mustafá Stroheim na Cidade do Sol?

Ora, onde sempre ficou, no terceiro beco depois do velho mercado no bairro da Cidade do Sol, um pouco antes de chegar à velha vala de drenagem que já foi um canal de irrigação. E, se você chegar à loja de tapetes de Khayam Caolho, quer dizer que já passou do lugar — começou Crawcrustle. — Mas, pela expressão irritada no rosto de todos, vejo que vocês esperavam uma descrição menos detalhada e prolixa. Muito bem. Fica na Cidade do Sol, e a Cidade do Sol fica no Cairo, no Egito, onde sempre ficou, ou quase sempre.

— E quem pagará uma expedição à Cidade do Sol? — indagou Augustus Duas Penas McCoy. — E quem participará dessa expedição? Pergunto isso, embora eu já saiba a resposta e não goste dela.

— Ora, você vai pagar, Augustus, e nós todos iremos — respondeu Zebediah T. Crawcrustle. — Pode descontar das nossas mensalidades do Clube Epicuriano. E eu levarei meu avental de cozinheiro e meus utensílios de cozinha.

Augustus sabia que Crawcrustle não pagava sua mensalidade havia tempo demais, mas o Clube Epicuriano o perdoava. Crawcrustle era epicuriano desde os tempos do pai de Augustus. Ele simplesmente perguntou:

— E quando partiremos?

Crawcrustle o encarou com um olhar tresloucado e balançou a cabeça, desapontado:

— Ora, Augustus. Estamos indo para a Cidade do Sol, capturar o Pássaro-do-Sol.

Quando deveríamos partir?

— Domingo! — cantarolou Virgínia Boote. — Queridos, vamos partir num domingo!

— Ainda há esperança para você, minha jovem — comentou Zebediah T. Crawcrustle.

— De fato, partiremos num domingo. Daqui a três domingos. E iremos para o Egito. Passaremos vários dias caçando o fugidio Pássaro-do-Sol da Cidade do Sol, e, no fim, cuidaremos dele da maneira tradicional.

O professor Mandalay deu uma piscadela de constrangimento: Mas eu dou aula na segunda. Toda segunda dou aula de mitologia, toda terça, de sapateado, e, toda quarta, de marcenaria.

— Arrume um substituto para dar a sua aula, Mandalay Ó Maudalay. Segunda você estará no encalço do Pássaro-do-Sol — disse Zebediali T. Crawcrustle. — E quantos outros professores podem vivenciar isso?

Eles foram, um por um, ver Crawcrustle, para discutir a jornada que os esperava, e para expor suas dúvidas.

Zebediah T. Crawcrustle era um homem sem moradia fixa. No entanto, se você resolvesse procurá-lo, havia lugares onde ele podia ser encontrado. De madrugada, ele dormia no terminal de ônibus, onde os bancos eram confortáveis e os guardas de trânsito geralmente o deixavam em paz. No calor das tardes, ficava no parque, perto de estátuas de generais abandonadas, na companhia de bêbados de todas as espécies, compartilhando o conteúdo de suas garrafas e oferecendo a sua opinião, que era, como a de todo epicuriano, sempre considerada e sempre respeitada, ainda que nem sempre bem-vinda.

Augustus DuasPenas McCoy procurou Crawcrustle no parque. Ele estava com sua filha, Hollyberry Sem Penas McCoy. Ela era pequena, mas sua mente era afiada como o dente de um tubarão.

— Sabe — começou Augustus -, há algo de muito familiar nisto.

— Nisto o quê? — perguntou Zebediah.

— Tudo isto. A expedição ao Egito. O Pássaro-do-Sol. Parecia que eu já tinha ouvido tudo isso antes.

Crawcrustle apenas fez que sim com a cabeça. Ele estava mastigando algo que tirava de um saquinho de papel pardo. Augustus disse: — Consultei os anais encadernados do Clube Epicuriano. E lá estava, no índice, o que deduzi ser a referência ao Pássaro-do-Sol, de quarenta anos atrás, mas não pude ler nada mais.

— Por que não? — indagou Zebediah T. Crawcrustle, engolindo ruidosamente.

Augustus Duas Penas McCoy suspirou:

— Encontrei a página que queríamos nos anais, mas estava queimada, e depois houve alguma grande confusão na administração do Clube.

— Você tá tirando vaga-lumes desse saquinho e comendo — disse Hollyberry SemPenas McCoy. — Eu vi você comendo.

— Estou mesmo, mocinha — admitiu Zebediah T. Crawcrustle.

— Você se lembra da época da grande confusão, Crawcrustle? — perguntou Augustus.

— De fato, me lembro — respondeu Crawcrustle. — E me lembro de você. Tinha a idade da jovem Hollyberry. Mas sempre haverá confusão, Augustus, e depois ela passa. É como o nascer e o pôr-do-sol.

Jackie Newhouse e o professor Mandalay encontraram Crawcrustle naquela noite, atrás dos trilhos de trem. Ele estava assando algo numa latinha sobre um pequeno braseiro de carvão.

— O que você está assando, Crawcrustle? — perguntou Jackie Newhouse.

— Mais carvão — respondeu Crawcrustle. — Limpa o sangue, purifica o espírito.

Havia madeira de tília e nogueira, cortada em pequenos pedaços, no fundo da latinha, preta e fumegante.

— E você vai realmente comer esse carvão, Crawcrustle? — indagou o professor Mandalay.

Em resposta, Crawcrustle lambeu os dedos e pegou um pedaço de carvão da latinha. Ele chiou e fumegou em sua mão.

— Um belo truque — observou o professor Mandalay. — E assim que os engolidores de fogo fazem, eu acho.

Crawcrustle pôs o carvão na boca e o mastigou com seus velhos dentes desiguais:

— E, sim. É, sim.

Jackie Newhouse limpou a garganta: — A verdade, é que o professor Mandalay e eu temos muitas dúvidas sobre a jornada que nos espera.

Zebediah apenas mastigou o carvão.

— Não está quente o bastante comentou. Ele pegou um graveto do fogo e mordiscou a brasa alaranjada na ponta. — Este sim está bom.

— É tudo ilusão — disse Jackie Newhouse.

— Nada disso — discordou Zebediah T.. Crawcrustle, com ares de quem entendia do assunto. — É olmo espinhoso.

— Tenho sérias dúvidas sobre tudo isso — continuou Jackie Newhouse.  —  Meus ancestrais e eu sempre tivemos um instinto de autopreservação multo apurado, que várias  vezes nos fez percorrer telhados ou mergulhar em rios fugindo da lei ou de cavalheiros com armas e reivindicações legítimas. E esse instinto está me dizendo para eu não ir à Cidade do Sol com vocês.

— Eu sou um acadêmico — expôs o professor Mandalay -, e, portanto não tenho nenhum instinto especialmente desenvolvido que seja compreensível para quem nunca precisou dar notas a monografias sem ler as benditas. No entanto, acho a coisa toda bastante suspeita. Se esse Pássaro-do-Sol é tão saboroso, por que nunca ouvi falar dele?

— Você já ouviu, Mandy, velhinho. Você já ouviu — disse Zebediah T. Crawcrustle.

— E eu sou, além disso, um especialista em geografia, de Tulsa, Oklahoma, até Timbuktu — continuou o professor Mandalay. — Mas nunca vi menção em livro algum sobre um lugar chamado Cidade do Sol no Cairo.

— Menção? Ora, você deu aulas sobre ele — assegurou Crawcrustle, e salpicou um pedaço de carvão fumegante com molho de pimenta, antes de colocá-lo na boca e mastigá-lo.

— Eu duvido que esteja comendo isso de verdade — desafiou Jackie Newhouse. — Mas, só de ver o truque, já estou incomodado. Acho que é hora de ir embora.

E ele se foi. Talvez o professor Mandalay tenha ido com ele — aquele sujeito era tão cinza e fantasmagórico que era sempre difícil saber se ele estava ou não em algum lugar.

Virgínia Boote tropeçou em Zebediah T Crawcrustle quando ele descansava na porta da casa dela, de madrugadinha. Ela estava voltando de um restaurante sobre o qual ia escrever uma resenha. Desceu do táxi, tropeçou em Crawcrustle e caiu esparramada no chão, perto dele.

— Uiii! — exclamou ela. — Que tropeção!

— Foi mesmo, Virgínia — concordou Zebediah T. Crawcrustle. Por acaso você não

teria uma caixa de fósforos, teria?

— Tenho fósforos de papel em algum lugar. — Ela começou a fuçar em sua bolsa, que era bem grande e bem marrom. — Tome.

Zebediah T Crawcrustle trazia na mão uma garrafa de álcool de metila avermelhado, líquido com o qual encheu um copo descartável.

— Metila? — observou Virgínia Boote. — Nunca imaginei que você fosse um bebedor de metila, Zebby.

— E não sou mesmo. É um treco nojento. Apodrece as tripas e estraga as papilas gustativas. Mas não consegui achar fluido de isqueiro a esta hora da noite.

Ele riscou o fósforo, encostou-o na superfície do copo com álcool, que começou a queimar com uma luz bruxuleante, comeu o fósforo, e em seguida fez gargarejos com o líquido flamejante e cuspiu um jato de fogo na rua, incinerando uma folha de jornal que o vento levava.

— Crusty, esse é um ótimo jeito de você se matar — comentou Virgínia Boote.

Zebediah T Crawcrustle sorriu com dentes negros:

— Mas eu não bebo. Só gargarejo e cuspo fora.

— Você está brincando com fogo!

— É assim que eu me sinto vivo — explicou Zebediah T Crawcrustle. Virgínia disse:

— Oh, Zeb. Estou tão entusiasmada. Que gosto você acha que o Pássaro-do-Sol tem?

— Mais encorpado que codorniz e mais suculento que peru, mais gorduroso que avestruz e mais saboroso que pato — discorreu Zebediah T. Crawcrustle. — Uma vez comido, jamais é esquecido.

— Nós vamos pro Egito. Eu nunca fui pro Egito. — Ela fez uma pausa. — Você tem algum lugar pra passar a noite?

Ele tossiu, uma tossezinha que chocalhou dentro do seu velho peito:

— Estou ficando velho demais para dormir em soleiras e sarjetas. Mesmo assim, tenho o meu orgulho.

— Bem — ela disse, olhando-o -, você poderia dormir no meu sofá.

— Não que eu não esteja grato pelo convite, mas há um banco tom o meu nome no terminal de ônibus.

E ele desencostou do muro e saiu cambaleando majestosamente pela rua. Havia, realmente, um banco no terminal de ônibus com o nome dele. Ele doara o banco ao terminal quando ainda tinha dinheiro, e seu nome fora colocado atrás do encosto, gravado numa plaquinha de latão. Zebediah T. Crawcrustle não era sempre pobre. Às vezes era rico, mas tinha dificuldade em manter sua riqueza, e, sempre que ficava rico, descobria que o mundo desdenha de ricos que gostam de comer em companhia de andarilhos em meio a trens de carga, ou que confraternizam com os bêbados no parque, então ele fazia o que podia para torrar sua fortuna. Sempre havia partes dela aqui e ali que ele esquecia, e às vezes ele esquecia até que não gostava de ser rico, e então saía procurando sua fortuna e a encontrava.

Fazia uma semana que ele não se barbeava, e os pêlos de sua barba de sete dias começavam a ficar brancos como a neve.

Os epicurianos partiram para o Egito num domingo. Os cinco estavam ali, e Hollyberry  Sem Penas McCoy foi se despedir deles no aeroporto. Era um aeroporto bem pequeno, onde ainda era possível despedir-se acenando.

— Tchau, pai! — gritou Hollyberry SemPenas McCoy.

Augustus DuasPenas McCoy acenou para ela enquanto andavam pelo asfalto, rumo ao pequeno bimotor no qual fariam o primeiro trecho da viagem.

— Parece — disse Augustus DuasPenas McCoy -, que me lembro, embora vagamente, de um dia como este há muito, muito tempo. Nessa lembrança, sou um menininho dando adeus.

Acredito que foi a última vez que vi meu pai, e mais uma vez sou de repente acometido por um péssimo pressentimento. — Ele acenou uma última vez para a menina na outra ponta da pista, e ela acenou de volta.

— Naquela época, você acenou tão entusiasticamente quanto ela — observou Zebediah Crawcrustle -, mas acho que ela o faz com um pouco mais de elegância.

Era verdade.

Eles viajaram num avião pequeno, depois num maior, depois num menor, num dirigível, numa gôndola, num trem, num balão e num jipe alugado. Eles chacoalharam pelas ruas do Cairo no jipe. Passaram pelo velho mercado e viraram no terceiro beco (se tivessem seguido em frente, teriam chegado a uma vala de drenagem que já fora um canal de irrigação). Mustafá Stroheim em pessoa estava sentado na rua, empertigado sobre uma velha cadeira de vime. Todas as mesas e cadeiras ficavam na rua, que já não era particularmente larga.

— Bem-vindos, meus amigos, ao meu Kahwa — alegrou-se Mustafá Stroheim. — Kahwa, em egípcio, quer dizer café, a bebida ou o local onde é vendido. Querem um chá? Ou um jogo de dominó?

— Queremos ir para os nossos quartos — disse Jackie Newhouse.

— Eu não — discordou Zebediah T. Crawcrustle. — Vou dormir na rua. Está quente, e aquela soleira ali parece muito confortável.

— Quero um café, por favor — pediu Augustus DuasPenas McCoy.

— É claro.

— Vocês têm água? — perguntou o professor Mandalay.

— Quem perguntou? — disse Mustafá Stroheim. — Oh, foi você, homenzinho cinza.

Desculpe. Eu tinha visto você, mas achei que fosse a sombra de alguém.

— Eu quero Shay Sokkar Bosta — solicitou Virgínia Boote, perfeitamente ciente de que havia pedido um copo de chá quente com açúcar à parte. — E jogarei gamão com quem quiser me enfrentar. Não há vivalma no Cairo que eu não derrote no gamão, se conseguir lembrar as regras.

Augustus DuasPenas McCoy foi levado até o seu quarto. O professor Mandalay foi levado até o seu quarto. Jackie Newhouse foi levado até o seu quarto. Não foi algo demorado — afinal, eles iam ficar todos no mesmo quarto. Havia outro quarto nos fundos, onde Virgínia iria dormir, e um terceiro para Mustafá Stroheim e sua família.

— O que você está escrevendo? — perguntou Jackie Newhouse.

— São os processos, os anais e as minutas do Clube Epicuriano respondeu o professor Mandalay. Com uma pequena caneta preta, ele escrevia num grande livro encapado em couro.

— Relatei nossa jornada até aqui e todas as coisas que comemos no caminho. Vou continuar anotando quando comermos o Pássaro-do-Sol, e registrar para a posteridade todos os sabores e texturas, todos os aromas e essências.

— Crawcrustle contou como vai assar o Pássaro-do-Sol? — perguntou Jackie Newhouse.

— Contou — respondeu Augustus DuasPenas McCoy. — Ele disse que vai esvaziar uma lata de cerveja até que só reste um terço do líquido. Depois vai pôr ervas e temperos na lata. Vai colocar a lata dentro do pássaro e deixá-lo sobre a churrasqueira para assar. Ele diz que esse é o jeito tradicional.

Jackie Newhouse fungou:

— E um pouco moderno demais, pra mim.

— Crawcrustle diz que esse é o jeito tradicional de assar o Pássaro-do-Sol — repetiu Augustus.

— Digo mesmo — confirmou Crawcrustle, subindo a escada. A casa era pequena, a escada não ficava longe e as paredes não eram espessas. -A cerveja mais antiga do mundo é egípcia, e os egípcios já assam o Pássaro-do-Sol com ela há mais de 5 mil anos.

— Mas a lata de cerveja é uma invenção relativamente moderna — argumentou o

professor Mandalay quando Zebediah T. Crawcrustle entrou. Crawcrustle trazia uma xícara de café turco, preto como alcatrão, que fumegava como uma chaleira e borbulhava como um caldeirão de piche.

— Esse café parece estar muito quente — comentou Augustus DuasPenas McCoy.

Crawcrustle virou a xícara, tomando metade do conteúdo.

— Não — ele disse. — Não está, não. E a lata de cerveja não é uma invenção tão nova. Antigamente, nós as fazíamos usando um amálgama de cobre e latão, às vezes com um pouquinho de prata, às vezes sem. Dependia do ferreiro e do que ele tivesse à mão. Precisávamos de algo que agüentasse o calor. Vejo que vocês todos me olham incrédulos. Cavalheiros, considerem: claro que os egípcios antigos tinham latas de cerveja. Senão, onde iriam guardá-la?

Pela janela, chegavam várias vozes lamuriosas das mesas na rua. Virgínia Boote, que havia convencido os nativos a jogar gamão a dinheiro, estava acabando com eles. Aquela mulher era fera no gamão.

Nos fundos do café de Mustafá Stroheim havia um quintal com uma churrasqueira velha, arrebentada, feita de tijolos de barro, com uma grelha de metal semiderretida, e uma velha mesa de madeira. Crawcrustle passou o dia seguinte consertando e limpando a churrasqueira e lubrificando a grelha de metal.

— Parece que não usam isso há quarenta anos — comentou Virgínia Boote. Ninguém mais queria jogar gamão com ela, e sua bolsa estava repleta de piastras encardidas.

— Mais ou menos — disse Crawcrustle. — Talvez um pouco mais. Ginnie, faça algo de útil. Fiz uma lista das coisas de que preciso do mercado. Sobretudo ervas, temperos e lascas de madeira. Pode levar um dos filhos de Mustafá Stroheim para servir de intérprete.

— Com prazer, Crusty.

Os outros três membros do Clube Epicuriano estavam ocupados, cada um à sua maneira. Jackie Newhouse fazia amizade com muitas pessoas da região, atraídas por suas roupas elegantes e sua habilidade ao violino. Augustus DuasPenas McCoy saía para longas caminhadas. O professor Mandalay passava seu tempo traduzindo os hieróglifos que descobrira nos tijolos da churrasqueira. Ele disse que alguém mais tolo poderia achar que esses tijolos provavam que a churrasqueira no quintal de Mustafá Stroheim já fora consagrada ao Sol.

— Mas eu, que sou inteligente — continuou -, entendi imediatamente o que aconteceu: tijolos que fizeram parte, há muito tempo, de um templo foram, com o passar dos milênios, reutilizados. Duvido que essa gente saiba o valor do que tem aqui.

— Oh, eles sabem sim — discordou Zebediah T. Crawcrustle. — E esses tijolos não faziam parte de templo nenhum. Estão aqui há 5 mil anos, desde que construímos a churrasqueira. Antes disso, a gente se virava com pedras.

Virgínia Boote voltou com uma sacola cheia de compras: — Pronto. Macieira vermelha de sândalo e patchuli, sementes de baunilha, paus de lavanda, sálvia, folhas de canela, nozes-moseadas inteiras, cabeças de alho, cravo e alecrim. Tudo o que você queria, e mais algumas coisas.

Zebediah T. Crawcrustle sorriu, deliciado: — O Pássaro-do-Sol vai ficar tão feliz.

Ele gastou a tarde toda preparando um molho barbecue. Disse que era uma questão de respeito, e que, além disso, a carne do Pássaro-do-Sol era meio seca.

Os epicurianos passaram aquela noite sentados às mesas de vime na rua, enquanto Mustafá Stroheim e sua família lhes serviam chá, café e suco quente de hortelã. Zebediah T. Crawcrustle dissera aos amigos que eles comeriam o Pássaro-do-Sol da Cidade do Sol no almoço de domingo, e que seria bom não comer nada na noite anterior para que tivessem apetite.

— Estou com pressentimento de algo terrível — revelou Augustus Duas-Penas McCoy, aquela noite, numa cama pequena demais para ele, antes de dormir. — E temo que esse algo venha acompanhado de molho barbecue.

Todos estavam muito famintos na manhã seguinte. Zebediah T Crawcrustle usava um avental engraçado, com a frase BEIJE O COZINHEIRO escrita em verde chamativo. Ele já tinha espalhado as uvas passas embebidas em conhaque e os grãos debaixo do abacateiro anão que ficava atrás da casa e, no momento, estava dispondo as madeiras aromáticas, as ervas e os temperos sobre o carvão. Mustafá Stroheim e sua família tinham ido visitar parentes do outro lado do Cairo.

— Alguém tem fósforo? — Crawcrustle perguntou.

Jackie Newhouse tirou do bolso um isqueiro Zippo e o passou a Crawcrustle, que acendeu as folhas secas de louro e de canela debaixo do carvão. A fumaça subiu no ar do meio-dia.

— A fumaça de canela e sândalo trará o Pássaro-do-Sol — explicou Crawcrustle.

—Trará de onde? — quis saber Augustus DuasPenas McCoy.

— Do Sol — respondeu Crawcrustle. — E lá que ele dorme. O professor Mandalay pigarreou discretamente:

— No ponto mais próximo da órbita, a Terra fica a 146 milhões de quilômetros do Sol. O mergulho mais rápido já registrado de um pássaro é o do falcão peregrino, a 440 quilômetros por hora. Voando nessa velocidade, vindo do Sol, um pássaro levaria pouco mais de 38 anos para nos alcançar, isso se pudesse voar na escuridão, no frio e no vácuo do espaço, é claro.

— É claro — concordou Zebediah T. Crawcrustle. Ele protegeu os olhos, semicerrandoos, e olhou para cima:

— Aí vem ele.

Quase parecia que o pássaro estava saindo do sol, mas não podia ser. Afinal, não se pode olhar diretamente para o sol do meio-dia.

Primeiro era uma silhueta negra contra o sol e o céu azul, e então a luz do sol bateu em suas penas, e os espectadores, no chão, perderam o fôlego. Não existe nada igual à luz do sol refletida nas penas do Pássaro-do-Sol. Ver algo assim é de tirar o fôlego.

O Pássaro-do-Sol bateu suas grandes asas, depois começou a planar em círculos cada vez mais baixos sobre o café de Mustafá Stroheim.

O pássaro pousou no abacateiro. Suas penas eram douradas, púrpuras e prateadas. Ele era menor que um peru, maior que um frango, e tinha as pernas compridas e a cabeça alta de uma garça, embora sua cabeça lembrasse mais a de uma águia.

— É muito bonito — observou Virgínia Boote. — Vejam as duas penas grandes que tem na cabeça. Não são lindas?

— De fato, é muito lindo — opinou o professor Mandalay.

— Há algo familiar nessas penas da cabeça dele — comentou Augustus DuasPenas McCoy.

— Nós arrancamos as penas da cabeça antes de assá-lo — esclareceu Zebediah T. Crawcrustle. — Sempre fizemos assim.

O Pássaro-do-Sol empoleirou-se num galho ensolarado do abacateiro. Parecia quase brilhar discretamente ao sol, como se suas penas fossem feitas da luz do astro, iridescentes, púrpuras, verdes e douradas. Ele se alisou, estendendo uma asa na luz. Bicou e ajeitou a asa até que todas as penas estivessem endireitadas e lubrificadas. Depois estendeu a outra asa e repetiu o processo, finalmente, emitiu um chilreio satisfeito e voou do galho até o chão. Ele andou pela lama seca, olhando com cuidado para os lados.

— Olhem! — exclamou Jackie Newhouse.

— Ele achou os grãos. Parecia que estava procurando — observou Augustus DuasPenas McCoy, — Como se soubesse que haveria grãos ali.

— É que eu sempre deixo ali — explicou Zebediah T. Crawcrustle.

— Ele é tão lindo — repetiu Virgínia Boote. — Mas agora, olhando mais de perto, vejo que é muito mais velho do que eu pensava. Seus olhos estão opacos e suas pernas tremem.

Mas mesmo assim é lindo.

— O pássaro Bennu é o mais lindo dos pássaros — disse Zebediah T. Crawcrustle.

Virgínia Boote se virava bem com egípcio em restaurantes, mas não passava disso.

— O que é um pássaro Bennu? — ela perguntou. — Isso é Pássaro-do-Sol em egípcio?

— O pássaro Bennu — explanou o professor Mandalay -, empoleira-se na árvore

Persea. Ele tem duas penas na cabeça. Às vezes é representado como uma garça, outras, como uma águia. Há mais dados a respeito dele, mas são inverossímeis demais para que valha a pena continuar.

— Ele comeu os grãos e as passas! — exclamou Jackie Newhouse. — Agora estácambaleando, bêbado, de um lado pro outro… Mesmo bêbado, é tão majestoso!

Zebediah T. Crawcrustle andou até o Pássaro-do-Sol, que, com grande força de vontade, conseguia não trançar as longas pernas, trôpego, andando na lama sob o abacateiro. Ele parou diante do pássaro, e então, muito lentamente, curvou-se para ele. Dobrou o corpo com toda a dificuldade e esforço de alguém muito velho, lentamente. E o Pássaro-do-Sol também se curvou diante dele, e caiu deitado na lama. Zebediah T. Crawcrustle o levantou com reverência e o carregou em seus braços, como se fosse uma criança, levando-o para a área atrás do café de Mustafá Stroheim. Os outros o seguiram.

Primeiro ele arrancou as duas majestosas penas da cabeça e as pôs de lado.

E então, sem depenar o pássaro, retirou suas vísceras e as colocou sobre os gravetos fumegantes. Depois enfiou a lata de cerveja na cavidade e pôs o pássaro sobre a churrasqueira.

— O Pássaro-do-Sol cozinha rápido — avisou Crawcrustle. — Preparem seus pratos.

Como os antigos egípcios não tinham lúpulo, suas cervejas eram aromatizadas com cardamomo e coentro, o que as tornava encorpadas, saborosas e refrescantes. Dava para construir pirâmides depois de tomar uma cerveja assim, e às vezes eles faziam isso mesmo.

Sobre a churrasqueira, a cerveja vaporizou-se dentro do Pássaro-do-Sol, mantendo-o suculento. Quando o calor do carvão alcançou as penas, elas queimaram, incendiando-se com um clarão, como um fogo de magnésio, tão brilhante que os epicurianos tiveram que desviar o olhar.

O cheiro de ave assada preencheu o ar, mais encorpado do que pavão, mais apetitoso do que pato. Os epicurianos ficaram com a boca cheia d’água. Parecia que não tinha se passado mais do que um instante desde que Zebediah o colocara no fogo, mas ele tirou o Pássaro-do Sol das brasas e o pôs sobre a mesa.

Então, com uma faca afiada, fatiou a carne fumegante e a distribuiu nos pratos, salpicou um pouco de molho barbecue sobre cada fatia e pôs a carcaça diretamente no fogo.

Os membros do Clube Epicuriano sentaram-se nos fundos do café de Mustafá Stroheim, ao redor de uma velha mesa de madeira, e comeram com as mãos.

— Zebby, é inacreditável! — comentou Virgínia Boote, falando enquanto comia. — Derrete na boca. Tem gosto de paraíso.

— Tem gosto de sol — disse Augustus DuasPenas McCoy, comendo feito gente grande.

Segurava uma coxa numa mão e um pedaço de peito na outra. — E a melhor coisa que já comi, e não me arrependo de comê-la, mas acho que vou sentir saudades da minha filha.

— É perfeito! — opinou Jackie Newhouse. — Tem gosto de amor, de boa música. Tem gosto de verdade.

O professor Mandalay escrevia nos anais encadernados do Clube Epicuriano. Estava registrando as reações dos epicurianos — inclusive as suas — à carne do pássaro, tentando não respingar na página enquanto anotava, porque com a outra mão segurava uma asa e, delicadamente, mordiscava sua carne.

— É estranho — observou Jackie Newhouse —, porque, à medida que eu como, minha boca e meu estômago vão ficando cada vez mais quentes.

— É. É assim mesmo — explicou Zebediah T. Crawcrustle. — É melhor treinar antes. Comer brasa, fogo e vaga-lumes pra ir se acostumando. Senão fica meio difícil digerir.

Zebediah T. Crawcrustle comia a cabeça do pássaro, mastigando seus ossos, seu bico. À medida que ele mordia, os ossos produziam faíscas contra seus dentes. Ele apenas sorria e mastigava mais.

Os ossos do Pássaro-do-Sol ardiam, alaranjados, sobre a churrasqueira, e então seu brilho se tornou branco. O calor produzia uma névoa espessa no quintal dos fundos do café de Mustafá Stroheim, e nela tudo ondulava, como se as pessoas sentadas à mesa estivessem vendo o mundo debaixo d’água ou num sonho.

— E tão gostoso! — repetiu Virgínia Boote, enquanto comia. — É a melhor coisa que já comi. Tem gosto da minha juventude. Tem gosto de para sempre.

— Ela lambeu os dedos e pegou o último pedaço de carne do prato. — O Pássaro-do Sol da Cidade do Sol. Ele tem algum outro nome?

— É a Fênix de Heliópolis — respondeu Zebediah T Crawcrustle. — E o pássaro que morre no fogo e nas cinzas, e renasce, geração após geração. É o pássaro Bennu, que voou sobre as águas quando só havia escuridão. Quando chega a época, ele é queimado numa fogueira de madeiras raras, especiarias e ervas, e renasce das cinzas, toda vez, por toda a eternidade.

— Fogo! — exclamou o professor Mandalay. — Sinto como se estivesse queimando por dentro! — Ele tomou um gole d’água, mas não pareceu melhorar.

— Meus dedos — disse Virgínia Boote. — Olhem para os meus dedos.

— Ela levantou as mãos. Os dedos estavam brilhando por dentro, como que iluminados por chamas internas.

O ar já estava tão quente que poderia cozinhar um ovo. Houve uma faísca e um crepitar.

As duas penas amarelas no cabelo de Augustus DuasPenas McCoy acenderam como buscapés.

— Crawcrustle — perguntou Jackie Newhouse, em chamas —, responda sinceramente. Há quanto tempo você come a Fênix?

— Há pouco mais de 10 mil anos — revelou Zebediah. — Alguns milênios a mais ou a menos. Não é difícil, depois que você pega o macete. Pegar o macete de comer é que é difícil. Mas esta é a melhor Fênix que já preparei. Ou devo dizer: “Nunca assei melhor esta Fênix”?

— Os anos! — alertou Virgínia Boote. — O fogo está queimando seus anos!

— Queima mesmo — admitiu Zebediah. — Mas você precisa se acostumar com o calor, antes de comê-la. Senão pode virar cinza.

— Por que não me lembrei disso? — lamentou-se Augustus DuasPenas McCoy, através

das chamas brilhantes que o envolviam. — Por que não lembrei que foi assim que meu pai se foi, e o pai dele antes dele, que cada um deles foi a Heliópolis comer a Fênix? E por que só estou me lembrando disso agora?

— Porque seus anos estão queimando — explicou o professor Mandalay. Ele fechou o livro de capa de couro assim que a página na qual estava escrevendo pegou fogo. As laterais estavam chamuscadas, mas o resto se salvaria.

— Quando os anos queimam, as lembranças daqueles anos voltam. — Ele parecia mais sólido naquele momento, através das ondas de calor, e estava sorrindo. Nenhum deles jamais havia visto o professor Mandalay sorrir.

— Vamos queimar até virar nada? — perguntou Virgínia, incandescente.

— Ou vamos queimar de volta à infância, depois virar espíritos, anjos, e começar tudo de novo? Não importa. Oh, Crusty, tudo isto é tão divertido!

— Talvez — comentou Jackie Newhouse, em meio ao fogo -, o molho pudesse ter um pouco mais de vinagre. Sinto que uma carne assim pede algo mais encorpado. — E ele se foi, deixando somente uma sombra.

— Chacun à son goût — observou Zebediah T. Crawcrustle, que é “cada um com seu gosto” em francês. Ele lambeu os dedos e balançou a cabeça.

— Nunca ficou melhor — disse, com enorme satisfação.

— Adeus, Crusty — despediu-se Virgínia. Ela estendeu sua mão envolta em chamas brancas e apertou a mão escura dele por um instante, ou talvez dois.

E então não restou nada no quintal atrás do Kahwa (ou café) de Mustafá Stroheim em Heliópolis (que já foi a cidade do Sol, e agora é um subúrbio do Cairo) senão cinzas brancas — que foram sopradas pela brisa momentânea e caíram como açúcar de confeiteiro ou como neve — e ninguém além de um jovem de cabelos bem escuros e dentes retos da cor do marfim, usando um avental com a frase BEIJE O COZINHEIRO.

Um passarinho dourado e roxo agitou-se na grossa camada de cinzas que cobria os tijolos de argila, como se estivesse acordando pela primeira vez. Ele soltou um “piu!” agudo e olhou diretamente para o sol, como um recém-nascido olha para os pais. Esticou suas asas como que para secá-las e, finalmente, quando estava bem preparado, voou para o alto, em direção ao sol, e ninguém o viu partir além do jovem no quintal.

Duas longas penas douradas estavam aos pés do jovem, sob as cinzas que já tinham sido uma mesa de madeira, e ele as recolheu, limpou o pó branco que as cobria e as guardou, com reverência, dentro de seu paletó. Em seguida, tirou o avental e seguiu o seu caminho.

Hollyberry Duas Penas McCoy já é adulta e tem filhos. Tem fios de prata na cabeça, em meio ao cabelo preto, por baixo das penas douradas em seu coque. Pode-se ver que as penas já devem ter sido muito especiais, mas isso foi há muito tempo. Ela é presidente do Clube Epicuriano — uma turma divertida e barulhenta — cargo que, há muitos anos, herdou de seu pai.

Ouvi dizer que os epicurianos começaram a resmungar de novo. Estão comentando que já comeram de tudo.

(PARA HMG — UM PRESENTE DE ANIVERSÁRIO ATRASADO)

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Gaiman escreveu esse conto como presente de aniversário de 18 anos para sua filha Holly, a pedido dela. Segundo ele, tentou escrever uma história no estilo do escritor R. A. Lafferty, de quem é admirador. Achou a empreitada difícil; mas o resultado é maravilhoso. O conto foi publicado no livro Fragile Things (Coisas Frágeis) que saiu no Brasil pela Conrad.

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R. A. Lafferty. Imagem:  http://orgs.utulsa.edu/

Neil Gaiman. Imagem: http://www.deseretnews.com/

 

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