Literatura
Comentários 3

Ascenso Ferreira e Zé Neto

Meu avô Zé Neto, José Teixeira Neto, era um médico nascido no agreste, no entroncamento das terras de Paulo Jacinto, Viçosa e Quebrangulo – onde se misturam a mata e o sertão. E onde chegam disfarçados os ventos do litoral, ainda.  Caboclo de beleza reconhecida até pelos pares, militar, boêmio e mulherista. Cedo morreu sua mãe, minha bisavó Guiomar Tenório Cavalcanti, e a ele coube também ser pai dos inúmeros irmãos ao lado de meu bisavô Leonardo.

Foi político, exportador de algodão, fazendeiro; morreu pobre devido ao tamanho de seu coração. Atendia de graça, dava dinheiro a quem pedisse e era manso. Era, no entanto, dado a ataques de fúria: uma vez, ao ver um homem lapear um burro escangalhado, já espumando sob o peso da carga, tomou o chicote e deu uma pisa no cidadão. Teve de ser contido para não finalizar o ato ali mesmo à luz do dia.

Quando eu era muito menina, ele me levava para passear em seu jipe antigo. Ficava cantando e falando versos. Foi a primeira vez que ouvi Ascenso Ferreira. Vou danado pra Catende, vou danado pra Catende… meu avô cantava imitando o trem ao passarmos pela linha férrea que cortava ao meio a Feira do Passarinho.

Na feira havia cheiro de lama, lama de mangue, fumo, cachaça, charque e suor. Uma ruela estreita emprestava nome ao mercado, ladeada por gaiolas de pássaros; meu avô adorava um sabiá e um galo de campina. Tinha também cheiro de caju, manga, melaço, sal…Todos os cheiros de Alagoas.

E as barracas de erva e as tendas das coisas de Xangô. E os neuróticos de guerra; os mendigos de lata de leite ninho na mão, todos enlouquecidos pela visão da morte, todos servidos diariamente com os restos de almoço das casas de família.

E tinha a estrada de Bebedouro beirando a lagoa, com suas mansões e suas histórias de botijas e malasombros. E, mais adiante, perto da Chã, a praça em que no Natal íamos ver o Guerreiro e o Pastoril.

E eu escutava os casos da Mata Escura, a fazenda de meu bisavô em Viçosa, onde até leões apareciam, onde a mulher que xingou Padre Cícero saiu voando, com sua saia transformada em balão. 

Ascenso era Pernambucano, mas de um tempo em que Alagoas e Pernambuco guardavam o mesmo zeitgeist. Um tempo que não alcancei, onde os homens iam ao Café Colombo e aos bordéis do Porto de Jaraguá. 

Scan0006 (8)

Meu avô com minha mãe, Lúcia Guiomar, em seu baile de debutante e no dia de seu casamento com Maria Lúcia Nobre, que tinha então 16 anos

 IMG_5391 (2)

E sobre essas duas primeiras poesias, gosto de pensar que meu avô declamava para minha avó, Maria Lúcia Porciúncula Nobre. Maria, como a moça do poema A Força da Lua. Maria que com ele se casou menina e com ele viveu um amor de fogo, que não se apagou nem depois de sua morte, tão jovem, aos 54 anos. E do qual ela lembrava e ainda vivia o ardor, e isso eu via em seu rosto, quando tocava La Cumparsita ao piano.

CATIMBÓ

Mestre Carlos, rei dos mestres,
aprendeu sem se ensinar…
– Ele reina no fogo !
– Ele reina na água !
– Ele reina no ar !

Por isto, em minha amada, acenderá a paixão que consome !
Umedecerá sempre, em sua lembrança, o meu nome !
Levar-lhe-á os perfumes do incenso que lhe vivo a queimar.

E ela há de me amar.
Há de me amar…
Há de me amar…
– Como a coruja ama a treva e o bacurau ama o luar !

À luz do sete-estrelo nós havemos de casar !
E há de ser bem perto.
Há de ser tão certo.
como que este mundo tem de se acabar…

Foi a jurema da sua beleza que embriagou os meus sentidos !
Eu vivo tão triste como os ventos perdidos
que passam gritando na noite enorme…

Porque quero gozar o viço que no seu lábio estua !
Quero sentir sua carícia branda como um raio da lua !
Quero acordar a volúpia que no seu seio dorme …
E hei de tê-la,
hei de vencê-la,
ainda mesmo contra seu querer …
– Porque de Mestre Carlos é grande o poder !

Pelas três-marias… Pelos três reis magos … Pelo sete-estrelo…
Eu firmo esta intenção,
bem no fundo do coração,
e o signo-de-salomão
ponho como selo…

E ela há de me amar…
Há de me amar…
Há de me amar…
– Como a coruja ama a treva e o bacurau ama o luar !

Porque Mestre Carlos, rei dos mestres,
reina no fogo… reina na água… reina no ar…
– Ele aprendeu sem se ensinar…

A FORÇA DA LUA

Não te chegues assim, para mim…

Ó Maria!
Ai! Não te chegues não…

A lua cheia tem muita força,
Maria!
– E o luar sempre foi a nossa perdição…

O vento que assopra,
assopra com força…
Há forças nas águas,
– Repara a maré!

E há forças também ocultas na gente,
talvez que as das águas maiores até…

Não te chegues assim, para mim…
Ó Maria!
Ai! Não te chegues não…

Há força nas águas, há força nos ventos
e forças que em nós ocultas estão…

A lua cheia tem força muita, Maria!
– E o luar sempre foi a nossa perdição!

Ascenso declamando Ascenso

PREDESTINAÇÃO

– Entra pra dentro, Chiquinha!
Entra pra dentro, Chiquinha!
No caminho que você vai
você acaba prostituta!

E ela:
– Deus te ouça, minha mãe…
Deus te ouça…

TREM DE ALAGOAS

O sino bate,
o condutor apita o apito,
Solta o trem de ferro um grito,
põe-se logo a caminhar…

— Vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende
com vontade de chegar…

Mergulham mocambos,
nos mangues molhados,
moleques, mulatos,
vêm vê-lo passar.

— Adeus!
— Adeus!

Mangueiras, coqueiros,
cajueiros em flor,
cajueiros com frutos
já bons de chupar…

— Adeus morena do cabelo cacheado!

Mangabas maduras,
mamões amarelos,
mamões amarelos,
que amostram molengos
as mamas macias
pra a gente mamar

— Vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende
com vontade de chegar…

Na boca da mata
há furnas incríveis
que em coisas terríveis
nos fazem pensar:

— Ali dorme o Pai-da-Mata!
— Ali é a casa das caiporas!

— Vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende
vou danado pra Catende
com vontade de chegar…

Meu Deus! Já deixamos
a praia tão longe…
No entanto avistamos
bem perto outro mar…

Danou-se! Se move,
se arqueia, faz onda…
Que nada! É um partido
já bom de cortar…

— Vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende
vou danado pra Catende
com vontade de chegar…

Cana caiana,
cana roxa,
cana fita,
cada qual a mais bonita,
todas boas de chupar…

— Adeus morena do cabelo cacheado!

— Ali dorme o Pai-da-Mata!
— Ali é a casa das caiporas!

— Vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende
vou danado pra Catende
com vontade de chegar…

164880

BLACK-OUT

A boca-da-noite passou no papo todas as luzes!
Há Cabras-Cabriolas lá fora a berrar…
(Transeunte, abriga-te!)

O Pai-da-Mata dá gritos de alarmes:
— Quem vem lá?
— Quem vem lá?
— Quem vem lá?

E pelos descampados dos céus sombrios,
gigantes de bota-de-sete-léguas
apostam carreiras sobre a Terra e o Mar.
________________

Oh! O pavor das criancinhas atônitas:
— Mamãe, o mundo vai se acabar?!

SERTÃO

Sertão! – Jatobá!
Sertão! – Cabrobó!

– Cabrobó!
– Ouricuri!
– Exu!
– Exu!

Lá vem o vaqueiro, pelos atalhos,
tangendo as reses para os currais…
Blém… blém… blém… contam os chocalhos
dos tristes bodes patriarcais.
E os guizos fininhos das ovelhinhas ternas:
dlim… dlim… dlim…
E o sino da igreja velha:
bão… bão… bão…

O sol é vermelho como um tição!
Lento, um comboio move-se na estrada,
cantam os tangerinos a toada
guerreira do Tigre do sertão:
“É lamp… é lamp… é lamp…
é Virgulino Lampião…”

E o urro do boi no alto da serra,
para os horizontes cada vez mais limpos,
tem qualquer coisa de sinistro como as vozes
dos profetas anunciadores de desgraças…
– O sol é vermelho como um tição!
– Sertão!
– Sertão!

A CAVALHADA

Fitas e fitas…
Fitas e fitas…
Fitas e fitas…
Roxas,
verdes,
brancas,
azuis,

Alegria nervosa de bandeirinhas trêmulas!
Bandeirinhas de papel bulindo no vento!…

Foguetes do ar…

— “De ordem do Rei dos Cavaleiros,
a cavalhada vai começar!”

Fitas e fitas…
Fitas e fitas…
Fitas e fitas…
Roxas,
verdes,
brancas,
azuis…

— Lá vem Papa-Légua em toda carreira
e vem com os arreios luzindo no sol!
— Danou-se! Vai tirar a argolinha!

— Pra quem será?
— Lá vem Pé-de-Vento!
— Lá vem Tira-Teima!
— Lá vem Fura-Mundo!
— Lá vem Sarará!
— Passou lambendo!
— Se tivesse cabelo, tirava!…
— Andou beirando!…
— Tirou!!!
— Música, seu mestre!
— Foguetes, moleque!
— Palmas, negrada!
— Tiraram a argolinha!
— Foi Sarará!

Fitas e fitas…
Fitas e fitas…
Fitas e fitas…
Roxas,
verdes,
brancas,
azuis…

— Viva a cavalhada!
— Vivôô!!!

— De ordem do Rei dos Cavaleiros,
a cavalhada vai terminar!

MÊS DE MAIO

O altar de gazes adornado,
parece um ninho de noivado…

E a gente chega a interrogar
se Nossa Senhora vai casar…

Um perfume de rosas no ar trescala:
– São as rosas de carne que há na sala.

Rosas morenas,
rosas louras como espigas maduras.
– Ó perfumosas
e puras
rosas pálidas como açucenas!
Súbito, ecoa no espaço um som:
Kirie eleison… Kirie eleison…

E as bocas carminadas rezam baixinho…

baixinho:

“Ó Mãe castíssima!
Ó Vaso espiritual!
Ó Espelho da Justiça!
Ó Rainha concebida sem pecado original!
Ó Consolação dos aflitos!
Ó Senhora dos Infinitos!
Ó Torre de Davi!
Ó Estrela da Manhã!
Ó Escada de Jacó!
Ó Rosa de Sião!
Ó Lírio de Jericó!
Ó Rainha Cristã!

Ó!…

Rogai por nós
que recorremos a vós…”

Um perfume de rosas no ar trescala.
– São as rosas de carne que há na sala.

O incenso queima diante do altar;
o mês de maio vai terminar…

Com seus deliciosos braços nus,
as rosas fazem o sinal-da-cruz…

Amém…

12534282_1553653148283542_1296021667_n

Ascenso reverencia Dona Santa, rainha do Maracatu Elefante. Recife, anos 50. Foto: Lula Cardoso Ayres – Acervo Fundação Joaquim Nabuco. Achado em Pernambuco Arcaico

Anúncios

3 comentários

  1. Mais que um post, um registro histórico para fazer parte de qualquer acervo que se preze de ser considerado assim, em todo esse Brasil. História, Cultura, Comportamento de um país que vai se esvaindo na corrupção, na falta de ética, no faz de conta dos “estudados”. Parabéns, Ana, muito feliz e pertinente seu texto, sua pesquisa. Parabéns!

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s