Literatura
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Eu, Augusto dos Anjos – Poesias

Existem “singularíssimas pessoas”, uma delas foi minha avó materna, Maria Lúcia Porciúncula Nobre, a outra meu avô paterno João Calazans. Com a primeira conheci Augusto dos Anjos e sempre me impressionava vê-la recitar seus poemas.

Uma senhora católica, pianista, cheia de pudores e sisos era tomada repentinamente de energia e humor insuspeitos (ela recitava Augusto com um humor adorável) e, com uma inflexão teatral, declamava “Profundíssimamente hipocondriaco!”.

Já de meu avô paterno, um jornalista capixaba whyskista, salamista e stalinista, herdei “Eu e Outros Poemas”, em uma edição sem data da Editora Bedeschi.

 

O livro herdado

O “monista-evolucionista-transformista”, como diz Antonio Torres no estudo que acompanha a edição, Augusto dos Anjos, era paraibano e escreveu sua primeira poesia aos sete anos.  Digitei algumas que gosto diretamente do livro porque quis manter a ortografia original, que, para mim, contribui ainda mais para o ritmo particular da poesia de Augusto.

 

Eu

 

Psychologia de um Vencido

Eu, filho do carbono e do ammoniaco,

Monstro de escuridão e rutilancia

Soffro, desde a epigénesis da infancia,

A influencia má dos signos do zodiaco.

 

Profundissimamente hypocondriaco,

Este ambiente me causa repugnancia…

Sobe-me á boca uma ansia análoga á ansia

Que se escapa da boca de um cardiaco.

 

Já o verme – este operario das ruínas –

Que o sangue pôdre das carnificinas

Come e á vida em geral declara guerra,

 

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,

E ha de deixar-me apenas os cabellos,

Na frialdade inorganica da terra!

 

Debaixo do Tamarindo

No tempo de meu Pae, sob estes galhos,

Como uma véla fúnebre de cera,

Chorei bilhões de vezes com a canceira

De inexorabilissimos trabalhos!

 

Hoje, esta arvore, de amplos agasalhos,

Guarda, como uma caixa derradeira,

O passado da Flora Brasileira

E a paleontologia dos Carvalhos!

 

Quando pararem todos os relogios

De minha vida e a voz dos necrologios

Gritar nos noticiarios que eu morri,

 

Voltando á patria da homogeneidade,

Abraçada com a propria Eternidade

A minha sombra ha de ficar aqui!

 

Vandalismo

Meu coração tem cathedraes immensas,

Templos de priscas e longinquas datas,

Onde um nume de amor, em serenatas,

Canta a alleluia virginal das crenças.

 

Na ogiva fulgida e nas columnatas

Vertem lustraes irradiçoes intensas

Scintilações de lampadas suspensas

E as amethystas e os florões e as pratas.

 

Como os velhos templários medievaes

Entrei um dia nessas cathedraes

E nestes templos claros e risonhos…

 

E erguendo os gládios  e brandindo as hastas,

No desespero dos iconoclastas,

Quebrei a imagem de meus proprios sonhos!

 

Sonho de um Monista

Eu e o esqueleto esquálido do Eschylo

Viajávamos, com uma ansia sybarita,

Por toda a pro-dynamica infinita,

Na inconsciencia de um zoóphyto tranquilo.

 

A verdade espantosa de um Prothylo

Me aterrava, mas dentro da alma aflicta

Via Deus – essa mónada exquisita –

Coordenando e animando tudo aquilo!

 

E eu bemdizia, com o esqueleto ao lado.

Na gutturalidade do meu brado,

Alheio ao velho cálculo dos dias,

 

Como um pagão no altar de Proserpina,

A energia intra-cósmica divina

Que é o pae e a mãe das outras energias!

 

Budhismo Moderno

Tome, Dr., esta tesoura, e… córte

Minha singularissima pessôa.

Que importa a mim que a bicharia rôa

Todo o meu coração, depois da morte?!

 

Ah! Um urubú pousou na minha sorte!

Tambem, das diatomáceas da lagôa

A cyptógama cápsula se esbrôa

Ao contacto de bronca dextra forte!

 

Dissolva-se, portanto, minha vida

Igualmente a uma cellula cahida

Na aberração de um ovulo infecundo;

 

Mas o aggregado abstracto das saudades

Fique batendo nas perpetuas grades

Do ultimo verso que eu fizer no mundo!

 

As Scismas do Destino (três primeiras estrofes)

 I

Recife. Ponte Buarque de Macedo.

Eu, indo em direção à casa do Agra,

Assombrado com a minha sombra magra,

Pensava no Destino, e tinha medo!

 

Na austera abóbada alta o fósforo alvo

Das estrelas luzia… O calçamento

Sáxeo, de asfalto rijo, atro e vidrento,

Copiava a polidez de um crânio calvo.

 

Lembro-me bem. A ponte era comprida,

E a minha sombra enorme enchia a ponte,

Como uma pele de rinoceronte

Estendida por toda a minha vida!

 

OUTRAS POESIAS

 

Victima do Dualismo 

Ser miseravel dentre os miseraveis

– Carrego em minhas cellulas sombrias

Antagonismos irreconciliaveis

E as mais oppostas idiosyncrasias!

 

Muito mais cêdo do que imaginaveis

Eis-vos, minha alma, emfim, dada ás bravias

Cóleras dos dualismos implacaveis

E á gula negra das antinomias!

 

Psychê bifórme, o Céu e o Inferno absorvo…

Creação a um tempo escura e côr de rosa,

Feita dos mais variaveis elementos,

 

Ceva-se em minha carne, como um côrvo,

A simultaneidade ultra-monstruosa

De todos os contrastes famulentos!

 

augusto-dos-anjos2

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