Literatura
Deixe um comentário

Thomas Pynchon – Vício Inerente

vicio-inerente

Deve estrear só em março no Brasil o filme do Paul Thomas Anderson baseado no penúltimo livro do Thomas Pynchon, lançado em 2009, ‘Vício Inerente’. Eu li em 2013 e, embora ele tenha me deixado cansada algumas vezes, foi uma leitura bem divertida. Só tomei conhecimento do Pynchon no comecinho da década de 90, quando lançaram por aqui ‘Vineland’, por via do saudoso suplemento ‘Folhetim’ da Folha de S. Paulo, que depois se tornou o ‘Letras’. Me interessei logo por ele porque era um personagem e tanto, com a mistura de paranoia e ironia que o acompanhava.

‘Vício Inerente’ é um policial que emula os thrillers noir de Chandler e Hammett, só que embaralhando suas tramas ao extremo. Conta a história de um detetive chapadão, Doc Sportello, que vive na fictícia praia de Gordita em South Bay, Los Angeles, provavelmente no início dos anos 70, e tem um cartão de visitas onde está escrito LSD Investigações (Location, Surveillance, Detection – Localização, Vigilância, Detecção). A rotina de trips e papos com os vizinhos igualmente doidões é perturbada quando Doc se mete numa confusão enorme por conta da femme fatale da vez, sua ex-namorada Shasta.

thomas-pynchon (2)

O uberecluso Pynchon em uma de suas raríssimas fotos: o escritor tem hoje 77 anos

Ela tem um caso com um especulador imobiliário da pesada, Mickey Wolffman, e acha que a esposa dele está tramando algo com o amante. Wolffman é sequestrado e Doc se vê enrolado até o pescoço em uma trama que mistura neonazistas, fanáticos religiosos, especuladores, uma máfia oriental, uma máfia farmacêutica, a polícia, o governo, clínicas suspeitas e bandas de rock. Para complicar ele tem o policial ‘Pé Grande’ Bjornsen na sua cola, um cara muito esquisito que pode ser desde o cabeça da coisa toda até o anjo da guarda manco de Doc.

800px-Manhattan_Beach_houses

Vista de Manhattan Beach em South Bay, LA: inspiração para a fictícia Gordita Beach

A investigação é a desculpa para uma crônica cheia de subtramas sem pé nem cabeça dos tipos e do ambiente cultural da época. (Na década de 60, Pynchon morou por um tempo em Manhattan Beach, um balneário de South Bay que serviu de modelo para a Gordita beach de Sportello, e parece ter simpatizado com o way of life local.) Um tom triste de desorientação, fim de festa e ressaca com o sonho do flower power transformado, em seu melhor, em apatia e, em seu pior, na loucura assassina de Charles Mason, atravessa o livro, apesar de sua nota histriônica. O detetive circula por ambientes que vão do kitsch ao hippie, do submundo ao luxo de LA, topa com vários personagens ambíguos, é atrapalhado por tipos estranhos e auxiliado por outros mais estranhos ainda (ele tem um amigo que é ferra na Arpanet, a mãe da internet) e se vê ameaçado  constantemente pela “The Golden Fang” (“A Presa Dourada”), uma organização tão sinistra quanto obscura que pode ser qualquer coisa.

A quantidade de referências pop comuns ao autor e a maneira como elas se cruzam e se materializam como microsociedades bizzaras mas perfeitamente realistas no livro me lembrou muito ‘Snow Crash’ (Nevasca) do Neal Stephenson.

INHERENT VICE

O filme tem Joaquin Phoenix como Doc, Josh Brolin como Pé Grande, Eric Roberts como Mickey, além de Owen Wilson, Reese Whiterspoon, Benício del Toro e Katherine  Waterston. E tem também uma trilha ótima (confira no vídeo abaixo).

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s