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Ray Bradbury – Dandelion Wine

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Green Town, é uma cidade imaginária. Ela não tem o realismo e o denso sentido do sagrado de Yoknapatawpha e nem a fantasia desabalada de Lilliput e Oz, mas, como a primeira, guarda semelhanças geográficas e culturais muito próximas à sua inspiração, a cidade de Waukegan, Illinois. Já com as duas últimas, a relação se dá pelo maravilhoso e pelo fantástico. Só que estes “sentidos” não são dados de maneira formal e direta, pela topografia, plasticidade ou códigos, para espanto e estranhamento dos que, porventura, a visitem, mas criados pela imaginação de um garoto de 12 anos. É ela que altera a forma como a cidadezinha e seus habitantes é vista por nós.

São as recordações de Douglas Spaulding sobre o verão de 1928 em Green Town que tecem as histórias curtas de Dandelion Wine (Licor de Dente de Leão) de Ray Bradbury. Publicado em 1957, o livro tem sua estrutura dividida em capítulos que são como pequenos contos; parte deles foi editada em separado, e com títulos, em revistas, outros foram escritos pelo autor para compor a obra. O livro é uma projeção poética da infância de Bradbury em Waukegan, cidade ao Norte de Chicago, onde ele viveu até os 14 anos; o nome do meio dele era Douglas e o nome de solteira de sua avó paterna era Spaulding.

No limiar da adolescência, Douglas tem um sentido agudo da passagem do tempo e dos chamados ‘fatos da vida’. Parece pressentir, e lutar contra, a aproximação da idade adulta como a personificação da perda, do esquecimento e da finitude. O vinho de dente de leão produzido por seu avô encarna a essência concentrada e imediata da memória, do presente que logo será passado. Seu perfume, cor e sabor são como o de um verão idílico, onde o calor é transferido para a paixão pela vida em suas manifestações mais variadas, cotidianas, paradoxais (e esquecidas): o amor e a admiração por um amigo, uma refeição como um ritual quase religioso, o adentramento e gozo do presente, a excitação das possibilidades, a criação poética e continua de si mesmo e do entorno, o conhecimento do medo…

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O preparo do licor de dente de leão pelo avô de Doug anuncia o início do verão no livro

A estação de 1928 começa com uma descoberta. Ao brincar de briga com seu irmão caçula Tom, Douglas cristaliza o significado de uma sensação estranha, uma espécie de ansiedade exultante, que inexplicavelmente está sentindo: ele percebe que está “vivo”. A partir daí, a alegria inocente que sentia em outros verões e seus rituais ganha uma estatura de rito de passagem com toda a carga de urgência, dor e alegria correspondentes. Os pequenos contos tratam então das experiências, subjetivas e objetivas, de Douglas, de seu irmão, seus familiares, amigos e moradores de Green Town.

Em um deles, (intitulado “A Noite”, quando publicado em separado) Douglas demora a voltar para casa depois de sair com os amigos, o que faz com que sua mãe e seu irmão saiam à sua procura na ravina, um símbolo bem claro do desconhecido. Tom, que ainda não tem consciência do medo, está tranquilo e se sente seguro de mãos dadas com sua mãe. Repentinamente, no entanto, ele toma ciência do pavor e da solidão radical do humano quando sente que sua mãe está aterrorizada com a possibilidade de Douglas estar morto e de que algo também os ameace. Este pequeno conto resume em um enredo simples algo profundamente complexo: o processo de tomada de consciência em um garoto de que não há nada que possa garantir nossa segurança no mundo e de que não há abrigo para além de nossa solidão.

“O impacto essencial da solidão da vida esmagou seu corpo […] A mãe também estava sozinha. Ela não podia contar com a santidade do casamento, a proteção do amor de sua família, ela não podia contar com a Constituição dos Estados Unidos ou com a polícia. […] Naquele instante, era um problema individual procurando por uma solução individual. Ele devia aceitar ser sozinho e agir a partir daí.”  

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Ilustração para a capa do livro feita pelo artista Thomas Canty para uma edição em inglês

No capítulo “A Bruxa do Tarô”, Douglas se vê às voltas com um processo de transferência empática com uma boneca mecânica operada por moedas, a bruxa do título, como forma de compensar sua angustia com a ideia da morte que emergiu quando ele “descobriu” que estava “vivo”. A bruxa dá uma carta em branco para Tom, e Douglas imagina que isso deve significar alguma tentativa da boneca de se comunicar e que ela é na verdade uma princesa aprisionada sob a capa de cera. Ele planeja sequestrar a bruxa-princesa e, juntamente com Tom e seu pai, se envolve numa confusão com o dono do lugar, um brutamontes chegado à bebida. Por fim, Douglas consegue o que quer e fantasia que um dia ela lhes dará uma carta de tarô na qual estará predito que ele e Tom “viverão para sempre”.

A amizade dos irmãos é feita de uma cumplicidade que se funda na curiosidade intelectual e interesse mútuos. Tão imaginativo quanto Doug, embora mais pragmático, Tom conta para o irmão em um trecho do livro sua ideia a respeito da formação da noite. Segundo ele, existem no mundo cinco milhões de árvores, ele pesquisou, e debaixo de cada árvore tem uma sombra. A noite é feita das sombras que saem dos cinco bilhões de árvores – “sombras correndo pelo ar, enlameando as águas” …  Se pudéssemos reter as sombras poderíamos ficar acordados até tarde; não haveria noite.

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Postal mostra estação de trem de Waukegan, cidade onde Bradbury viveu até os 14 anos

A mesma fumaça mágica paira sobre os moradores de Green Town. As histórias contadas pelo veterano da Guerra Civil, Coronel Freeleigh, são vivenciadas como uma viagem real em “A Máquina do Tempo” e a melancolia e a desesperança de alguns moradores idosos fazem o vizinho Leo Auffmann ficar obcecado com a criação de uma “Máquina da Felicidade” – uma espécie de engenhoca hologramática e multissensorial. Mas, ao invés de trazer alegria, a máquina torna as pessoas mais tristes: a satisfação dos desejos tornava a vida estranhamente vazia e o fato de saberem que o que viviam não era real, só fazia aumentar o desejo por algo não ordinário. Leo finalmente se dá conta de que a felicidade está justamente na vida comum; a magia vem da capacidade de vivê-la.

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O jovem Ray Bradbury: um homem que sempre honrou suas obsessões de infância

O tema da transitoriedade e da imersão no presente como forma de controlar o tempo é recorrente na obra. Em “Uma Temporada de Descrença” a Senhora Bentley é constantemente importunada por duas meninas amigas de Tom que não acreditam que um dia ela foi criança. Aferrada a sua coleção de bibelôs e lembranças de seu passado ela tenta inutilmente convence-las de que já foi jovem mostrando-lhes adereços e fotografias de sua infância, que as pequenas refutam como coisas roubadas de outra garotinha. A descrença das meninas faz a própria senhora duvidar. Um dia ela escuta a voz de seu falecido marido lhe dizendo que é inútil se aferrar ao passado, pois ele não é real. Ela então decide presentear as garotas com o que elas quiserem, queimar o resto em uma grande fogueira com a ajuda das crianças e confessar que realmente “nunca” foi uma menininha, nunca foi bela e que sempre teve 72 anos.

O conto-capítulo que mais gosto chama-se The Swan, “O Cisne”. O repórter Bill Forrester, um solteirão boa praça de 31 anos, leva Douglas na sorveteria e pede um sorvete de lima com baunilha. Helen Loomis, uma senhora de 95 anos que está no local fica encantada com a escolha pouco comum e, como ele diz conhecê-la, o convida a visitá-la. Durante a conversa, na qual eles se entendem perfeitamente, ele tem um vislumbre de sua juventude, vivacidade e beleza; do seu “cisne” –  Helen compara sua imagem jovem a de um cisne que foi devorado por um dragão, sua aparência atual.

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Bill continua visitando Helen e eles conversam sobre assuntos como suas várias viagens pelo mundo, arte, política… Até que um dia ele lhe conta o porquê de ter lhe dito que já a conhecia: há alguns anos ele viu uma foto de uma moça de 20 anos em uma matéria sobre o baile da cidade e ficou tão impressionado que planejou ir à festa para encontrá-la.  Seus colegas então contaram que a foto foi tirada há mais de 70 anos e era usada pelo jornal todos os anos para divulgar o baile da cidade organizado por ela.

A senhora então lhe fala de um rapaz que ela amou na juventude, que era lindo, selvagem e ousado, e que os dois acabaram se perdendo e diz a Bill que quando o viu na sorveteria foi como se estivesse vendo seu amado novamente. Até que em uma visita, Bill surpreende Helen escrevendo uma carta para ele; ela lhe diz que está perto de partir e que quando isso ocorrer ele saberá pela carta. Ele fica desesperado e ela o conforta dizendo que eles se encontrarão novamente. Helen o aconselha a se casar e viver uma vida feliz, porém não muito longa; que quando estiver perto dos 50 trate de ter uma pneumonia, de forma que possam minimamente aumentar as chances de se encontrarem novamente na idade certa, quem sabe em uma sorveteria. O conto termina Doug entregando a carta a Bill e eles indo novamente à sorveteria. Bill lê o que está escrito na carta: “Um sorvete de baunilha e lima”.

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Embora não seja o último capítulo, a história do carroceiro Mr. Ned Jonas, que carrega de lá pra cá em Green Town coisas que alguns deixam de querer e que podem ser o sonho de outros sem cobrar nada, é para mim a que fecha o ciclo do livro. Após tantas emoções e tanto calor, Doug cai de cama com uma febre alta e persistente. A família e Tom estão desolados, pois nem o médico consegue combater o problema.  Depois de tentar inutilmente visitar Douglas, Mr. Jonas consegue se aproximar dele na madrugada quando a família em uma tentativa de baixar sua febre coloca sua cama ao ar livre. Ele é o único que parece intuir que a doença do menino advém de seu sofrimento psíquico, “Algumas pessoas ficam tristes incrivelmente jovens[…] Por nenhum motivo, ao que parece, parecem quase nascer assim”.

Ned oferece a um Doug que delira de febre duas garrafas cheias de “Crepúsculo Verde de Puro Ar de Sonho do Norte”, em cujas bulas se lê que são compostas de elementos como vento da Baia de Dublin com sal, uma tira de flanela de neblina da costa da Islândia, partículas de poeira vistas brilhando ao pôr do sol de um dia nas campinas, frio capturado de um regato e de uma fonte, entre outras “substâncias”. Doug “toma pelo nariz” as bebidas e se recupera.

Bradbury não é apenas um “argumentista” de primeira, ele tem um controle completo da prosa e é um lírico que nunca parece forçado para mim. Quando li, o ‘ambiente’ do livro me remeteu imediatamente a “Conta Comigo”, filme baseado no conto “O Corpo” de Stephen King, com seu mood doce-amargo.  Me fez lembrar também, como acho que deve ocorrer com todos os que o leem,  de minha infância tão cheia de fantasias e romances de capa e espada e aventura (Ivanhoé, Os Três Mosqueteiros, A Ilha do Tesouro…) dos mapas estelares e do telescópio de minha avó paterna, do desejo de ser arqueóloga ou paleontóloga, do vizinho misterioso da mansão em frente à nossa casa na Avenida Jatiúca que nunca era visto de dia e que espionávamos certas de era um vampiro; acreditem: na Era Collor vim a saber que era o PC Farias. 

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Um trecho de um poema de Bradbury que acho tem a ver com Dandelion Wine

Fazer é ser

Fazer é ser.

Ter feito não basta;

Encher-se de fazer – este é o jogo.

Nomear a si mesmo pelo que foi feito a cada instante,

Tabular o seu tempo pela arma do pôr do sol

E encontrar você mesmo nos atos.

 

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Ray  Douglas Bradbury: Waukegan, 22/08/1920 — Los Angeles, 06/06/2012

 Bradbury nasceu no fim do verão e morreu em seu início.

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