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As Profundezas Infinitas da Banalidade

Sodô Yokoyama, chamado de “O Mestre da Flauta de Folha”, é considerado um dos cinco grandes renovadores do zen japonês no século XX. No texto traduzido abaixo, Yokoyama nos mostra sua visão particular sobre o zazen, que traz como maior presente o despertar do homem para sua banalidade e a ideia libertadora da prática eterna.

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Sodô Yokoyama era um homem profundamente incomum sob o manto de sua humildade e de sua certeza de ser um homem banal. Assim como outro discípulo de seu mestre Kodo Sawaki, Taisen Deshimaru, ele não se inclinou para uma vivência dogmática do zen e foi muito pouco ortodoxo em sua prática. Era chamado de “O Mestre da Flauta de Folha”.

Terno, risonho e infantil, ele se dirigia todos os dias ao parque de Kaikoen na cidade de Komoro, província de Nagano. Lá permanecia sentado em shikantaza, servia chá aos transeuntes, praticava caligrafia e tocava uma “flauta de folha”. Para ele, fazer soar a música pueril e engraçada de seus dedos e das folhas era como alimentar sua criança interior. Não duvidamos que o ato deve ter sido um lindo koan para os que tiveram a sorte de partilhar sua presença. Um perfil de Yokoyama foi traçado por Arthur Braverman no livro Viver e Morrer em Zazen: Cinco Mestres Zen do Japão Moderno.

O texto abaixo de sua autoria foi traduzido por mim e é uma pequena joia. Tem o encanto adicional de relacionar a arte marcial, no caso o kendo, ao espírito do zazen.

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Livro de Braverman traça perfis de Sawaki, Yokoyama, Kato, Ikebe e Ushiyama

 

O Caminho dos Patriarcas

Sodô Yokoyama

Meu mestre Sawaki Rôshi[1] sempre dizia a seu respeito: “Sou alguém eternamente perdido. Nada está mais mergulhado na ilusão que eu. Sou alguém iludido com enfeites bonitos. Sou completamente consciente disso quando faço zazen”.

Que coisa extraordinária é o zazen. Quando meditamos, ideias inoportunas, pensamentos fora de lugar – em resumo, as ilusões que constituem os seres ordinários – parecem ter de repente uma necessidade irreprimível de surgir e se manifestar. Além disso, surge o desejo de expulsar esses pensamentos, um desejo também irreprimível no qual pomos toda nossa energia. Aqueles que não fazem zazen nada sabem de tudo isto. Por que quando praticamos as ilusões continuam aparecendo uma após outra? Aprendemos pelo zazen que cada um de nós, seja príncipe ou mendigo, não é mais que uma pessoa comum (perdida). Eis aqui a razão. O esforço para expulsar estas ilusões – não sendo a ilusão mais que um absurdo pois vai contra nossa própria felicidade e a do outro – da mesma forma nos é revelado completamente pelo zazen. Por convenção chamamos “buda” esta meditação que nos guia dessa forma.

Segundo este ensinamento ser simplesmente consciente de estar perdido, o que provem da prática do zazen, já faz de você, na realidade, um buda. O zazen nos ensina que estamos extraviados e nos livra assim desta ilusão. Quando praticamos verdadeiramente e observamos atentamente o aparecimento das ilusões, tomamos consciência de quão comuns somos e do quanto é ridículo ser orgulhoso ou envaidecer-se. No há outra coisa a fazer senão recolher-se tranquilamente. Depois de tudo é isso o que verdadeiramente somos.

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Sawaki, mestre de Sodô, considerado o grande renovador do zen no século XX

O satori [o despertar] significa despertar para o fato de que estamos perdidos. Existe então o desejo, mesmo insignificante, de parar essas ações ilusórias. É desta forma que a pessoa comum se salva por zazen. Realizamos imaculadamente nossa banalidade por nossa prática de zazen.Toda interrupção do zazen (buda) nos tornará incapazes de abordar essas ilusões e perderemos nosso caminho. Podemos dizer que o mundo se engana por não poder abordar suas ilusões. Enganar-se, ou se perder, significa vagar nos seis domínios do renascimento. Todos os problemas do mundo, sejam políticos, econômicos, etc., provêm de situações nas quais a consciência da própria banalidade não está presente.

Sawaki Rôshi dizia: “De um ponto de vista religioso aqueles que não são conscientes de sua banalidade são superficiais e cômicos.”

O demônio – que é a ilusão –, quando é reconhecido como tal, não pode fazer uso de seus poderes e desaparece por si mesmo.

Shâkyamuni despertou para o fato de que não era mais que uma pessoa ordinária e se converteu em um buda. Depois começou a viver a vida de um buda. Quando você realiza sua banalidade se torna um buda e quando se é um buda pouco importam as ideais fora do lugar ou os pensamentos inoportunos que aparecem, eles já não constituem a medida de um buda. Dessa forma já não são obstáculos. As ilusões que já não são obstáculos se chamam fantasias. O Caminho do budismo – o caminho da paz – é a transformação da ilusão em fantasia.

Realizamos imaculadamente nossa banalidade por nossa prática de zazen. […] Todos os problemas do mundo, sejam políticos, econômicos, etc., provêm de situações nas quais a consciência da própria banalidade não está presente.Apesar da unidade ser a qualidade do zen, numerosas qualidades coexistem nesta unidade. O zen é o rosto original do caminho universal. É o nosso rosto original. Como dizia meu mestre: “Não havia ilusão no passado, não há despertar agora. É o rosto original de si mesmo.” O satori não é necessário quando não há ilusão. É por isso que meu mestre também dizia: “Não há problema em não alcançar o despertar. Certifique-se simplesmente de não se desviar. Assim, se você não se desviar [não se perder nas ilusões], o rosto original já está aqui. Por isso, permaneça tal como é, seja seu eu de agora tal como ele é.”

Resguardar-se dos desvios é fazer da ilusão uma fantasia. Pouco importa a quantidade de pensamentos ilusórios a partir do momento em que eles já não são obstáculos. É neste sentido que se diz no zen: “Não havia ilusão no passado, não há ilusão hoje.” Em outras palavras, no zazen não há ilusão, nem despertar, nem pessoas perdidas, nem budas. E é por esta razão, pelo fato de que desde sempre não existe ilusão, nem despertar, nem santo, nem pecador no zazen, que nós temos shikantaza – apenas sentar-se. Posto que não havia ilusão no passado nem despertar agora, não há necessidade de buscar o buda, nem existe inferno ou fracasso.É por isso que nós temos expressões fortes, como: “Mesmo se eu cair no inferno isso pouco importa.” O grande mestre Sekitô (700-790) expressava shikantaza da seguinte maneira: “Mesmo se eu afundar para sempre, por exemplo, na ilusão, me comprometo em não buscar a salvação dos santos.” Existe um buda ou um inferno no shikantaza? Não, não há nada mais que uma postura unificada e concentrada. Que grandiosa expressão utilizava Sekitô para descrever isto.

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Sodô Yokoyama toca sua flauta de folha no Bosque de Kaikoen em Nagano

No budismo sentar-se com este tipo de energia espiritual se chama o esforço justo. Dogen fala deste esforço justo como “nove vezes nove fazem oitenta e dois”. Se desde o início você faz o esforço necessário para obter oitenta e dois de nove vezes nove, pouco importa que apareça a ilusão, ela não será um obstáculo.

Sekitô se expressava segundo estes ensinamentos de uma forma mais doce: “A nuvem branca (a ilusão) não coloca obstáculos no vasto céu (zazen).” E Dogen dizia: “O vento dos pinheiros soa em vão aos ouvidos de um surdo (o meditador).”

A despeito do vento nos pinheiros soprar em vão nos ouvidos de um surdo (oitenta e dois), ele sopra. (Por mais numerosas que sejam as paixões, me comprometo a cortá-las). Como nossas ilusões não se interrompem nunca, nossa prática de zazen tampouco se interrompe. Se estivermos decididos a fazer zazen, não apenas em toda nossa vida, mas também em todas as inumeráveis vidas por vir, experimentaremos um sentimento de paz majestosa…

Assim como ocorre no kendo, não se trata tão somente da prática durante esta vida, mas também da determinação de praticar ao largo de inumeráveis vidas, o que também nos dá um sentimento de paz majestosa.

Voltemos ao zazen que se torna shikantaza. “Zazen é uma pessoa comum que está sempre se convertendo em buda.” Aqui também alguém se converte em buda na medida que mergulha em si mesmo praticando uma postura sentada ativa. Se não é feita dessa forma a meditação será uma dolorosa prática ascética. O zazen de se tornar buda é chamado de método do zazen do descanso agradável. A prática unificada é um descanso prazeroso.

Como a meditação consiste em se converter em buda na sua condição comum – tal como sois – isso não é somente “o buda que é unicamente o buda”. E como é uma pessoa comum a que se converte em buda, ela não é apenas uma pessoa comum. Mesmo admitindo que isto seja buda, isto não é buda. A essência, ou dito de forma melhor, o alcance disto, é expresso pelo ensinamento do “nem um, nem dois”. Igualmente se fala simplesmente do ensinamento do não dois.

Em termos budistas diríamos do kendo: O kendo não é nem para um nem para dois. Há na verdade um esforço que é um descanso aprazível – o satori. Se o kendo não é para um e nem para dois, então para quem é? É idêntico ao zazen. A meditação não é nem para os budas nem para as pessoas comuns. Para quem ela é então? E, no entanto, existe algo que é simplesmente zazen. É a partir deste ponto de vista que temos shikantaza, o zazen que é tão somente sentar-se. Em termos budistas poderíamos dizer que o kendo é igualmente shikankendo – tão somente kendo.

Meu mestre dizia: “Não poupe seu esforço. As pessoas têm sempre certa moderação quando fazem um esforço. Quando você poupa alguma coisa, pouco importa o que você faz, seus esforços serão reduzidos a nada. Você faz isso quando diz “Isso não está certo” ou “eu não posso fazer.”

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Antigo praticante de kendo: a arte marcial possui forte espiritualidade

Para liberar o kendo de seus limites não se deve praticar unicamente durante toda a vida, mas também por toda a eternidade. Se você pratica desta maneira o kendo perde seus limites, como o budismo ilimitado. Se é um kendo ilimitado, até mesmo um menino que empunha pela primeira vez um sabre de bambu pratica um kendo ilimitado.Quando você diz “é isto” fazendo todo o esforço para que nove vezes nove sejam oitenta e dois, nada lhe é impossível. Já que nós, os seres humanos, enquanto primatas, presumimos que podemos fazer esforços além de nossas capacidades habituais. Em termos budistas diríamos que o segredo daquele que despertou para o espírito de buda depende de sua vontade de agir…

No budismo o esforço diligente não está limitado a esta vida. Inclui a resolução de praticar ao longo de vidas e mortes inumeráveis e por toda a eternidade.Eu também devo ter esta vontade de praticar. Se sou capaz de uma resolução assim, um sentimento transcendente de paz resultará dela. Já que este espírito aprazível e o despertar são idênticos, não é uma questão de estar desperto para alguma coisa, mas sim a decisão de praticar o caminho de buda com o esforço exato – obter oitenta e dois através do nove vezes nove – e por toda a eternidade. Se sou capaz desta decisão eu mesmo me torno eterno. Assim o satori, o espírito apaziguado, significa converter-se em um com a eternidade – a eternidade vasta e sem limites.

Quando nove vezes nove perfazem oitenta e um se coloca uma limitação. Se alguma coisa possui limitações visíveis é limitada. Se no kendo você diz: “se você alcançar tal nível está em boa forma”, você limita o kendo. Ainda mais, se o satisfaz ser o número um do Japão em um grande torneio muito aplaudido, você será ainda assim limitado, mesmo que isso pareça uma grande proeza. Para liberar o kendo de seus limites não se deve praticar unicamente durante toda a vida, mas também por toda a eternidade. Se você pratica desta maneira o kendo perde seus limites, como o budismo ilimitado. Se é um kendo ilimitado, até mesmo um menino que empunha pela primeira vez um sabre de bambu pratica um kendo ilimitado. E uma vez que o zazen é eterno, o zazen é ilimitado, o mesmo ocorre com alguém que se senta pela primeira vez. Isto não é uma prática limitada pela afirmação de que deve ser praticada durante anos. O único satori que é eficaz, se é que se pode utilizar este termo, é o zazen eterno e ilimitado que é praticado e que jamais é abandonado e nem descuidado. Todas as atividades ou coisas que sentem o satori não valem nada. Quando você estuda o budismo e quer obter tal e tal coisa, quer se tornar isto ou aquilo, você impõe um limite. Este não é o caminho do buda ilimitado.

Verdadeiramente espero estar disposto a fazer o esforço necessário e tomar a decisão de praticar esta via do buda ilimitado. Se eu devo por um limite a esta prática, este seria a decisão de praticar eternamente. Já que se trata da decisão de uma prática verdadeira de zazen, por que não fazer desta resolução o limite de sua prática de kendo? Um limite sem limites.

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[1] Kodo Sawaki mestre soto zen japonês considerado o mais influente do século XX. Órfão, foi criado por uma prostituta e um jogador e decidiu ingressar em um mosteiro ainda garoto. Extremamente simples e sem instrução elevada, não só teve sua sabedoria reconhecida como a espalhou por todo o Japão ganhando o apelido de “Kodo Sem Teto” devido a suas constantes viagens. Foi também o mestre de Taisen Deshimaru. Nota da Tradutora.

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