Cultura
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Um Kung Fu Para Chamar de Meu

O Brasil é considerado, ao lado dos EUA, o país onde a herança do kung fu tradicional tem sido melhor preservada.Esta herança está intimamente ligada a seu componente espiritual – não necessariamente religioso – vinculado ao budismo chan (“pai” do zen japonês) e também ao taoismo e confucionismo. Assim, esta arte pode e deve ser absorvida como um “budismo físico” no qual a ênfase não recai apenas no componente marcial e externo, mas também no mental, emocional e espiritual.Disciplina de autodescoberta e autodesenvolvimento, o kung fu é uma arte que aprofunda e ilumina o maior tesouro do homem: sua singularidade.

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Um dia, ao ser questionado sobre quando havia descoberto que o kung fu seria algo permanente em sua vida, um de meus instrutores contou que quando estava na faixa verde procurou seu professor e perguntou “o que era o kung fu”. Ele logo percebeu que a pergunta precisava ser refeita, mas com outra inflexão: “Senhor, eu quero saber o que ‘É’ o kung fu?”. Ele não relatou a resposta do professor, até porque desconfio que ela deve ter sido assimilada de uma maneira tão pessoal que a tornaria intraduzível, ou pelo menos sua mensagem essencial seria.

O kung fu possui uma história, técnicas e estilos específicos, um ritual, um sistema de ensino consolidado, uma cultura própria, uma herança espiritual, mas para mim essas características refletem a forma da arte e apenas parte de sua essência. A outra parte é tão vasta e variada quantos são aqueles que algum dia sentiram que haviam descoberto algo que ajudaria a iluminar suas vidas: ou seja, na minha visão, o kung fu é algo profundamente pessoal, tanto em sua expressão plástica (física) como na subjetiva.

Se existe algo que não é definitivamente kung fu para mim é a ideia de que esta arte se resume a um conjunto de técnicas de combate e de que a explosão, a força e a agilidade nos treinos e competições são seu único objetivo, bem como a de que “todos” os praticantes devem alcançar e manter um platô técnico e físico unificado e imutável. Nada de errado com a perícia marcial, muito pelo contrário, mas a ênfase no componente físico acaba limitando uma arte profunda e sofisticada com imenso potencial de autoconhecimento e autodesenvolvimento e que compartilha de um dos princípios mais caros à espiritualidade oriental: a concepção de que tudo está em movimento, tudo muda, e de que a aceitação do imponderável e dos ciclos da vida é parte da sabedoria. No kung fu que guarda raízes com a herança tradicional chinesa isso se manifesta de maneira objetiva em práticas como as alterações do ritmo dos treinos baseadas nas mudanças orgânicas que ocorrem em cada estação do ano, por exemplo.

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No livro “The Barefoot Zen – The Shaolin Roots of Kung Fu and Karate”, o autor Nathan J. Johnson conta que como muitas pessoas procurou as artes pensando apenas em sua aplicação em combates, mas que isso apresentou vários problemas. Um deles foi o de que a complexidade e refinamento das formas pareciam não se adequar a um combate mais realista. Para Johnson, o propósito dos “avanços, puxões e bloqueios é ilustrar as noções budistas de harmonia e não violência”. O que ele chama de “budismo físico’ é o desenvolvimento lógico do “gesto inexprimível” zen. “O gesto inexprimível ou gesto sem palavras do zen é uma forma profunda e pratica de ensinar certas habilidades de maneira a evitar as limitações das palavras ou as armadilhas do intelectualismo”.

Em algum momento ao longo dos anos vai ficar claro para quem treina com seriedade que existe um “universo” por trás das formas e que seu domínio ou “incorporação” não é um objetivo em si mesmo, mas parte de um processo – é o que se convencionou chamar de “meditação em movimento”. O mesmo ocorre com a habilidade em lutas. (De minha parte considero infinitamente mais “divertido” e “desafiador” dar atenção ao esforço para harmonizar a respiração e as tentativas – infrutíferas, infelizmente – de me manter atenta e focada e a mesmo tempo “esvaziar a mente” e deixar o “corpo pensar” do que treinar para aplicar um golpe X ou uma queda.)

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Recentemente ouvi de um sifu em São Paulo ao lamentar sobre minhas limitações: “Esqueça os outros. Treine para você: o kung fu é seu e você o aplica com o seu corpo e sua mente e não com o corpo e a mente dos seus colegas”. O que ele me disse foi: respeite a sua singularidade.

Vejo sempre alunos novos chegarem ao centro onde treino; os jovens atléticos não são a maioria. Mesmo entre os mais novos são muitos os que estão longe do estereotipo do artista marcial com pulmão de ferro e músculos de aço. Boa parte de meus colegas chegam ao dojo acima do peso, estressados, alguns já passaram dos 40 anos e têm uma vida cheia de pressões e compromissos; outros não praticam nenhum tipo de exercício há anos e estão com a energia corporal bloqueada. As aulas, apesar de pedagogia gradual estruturada para condicionar e estimular a habilidade psicomotora aos poucos, são muitas vezes sofridas. Existem alunos que têm uma habilidade natural, outros uma disciplina forte, outros ainda não possuem nenhuma das duas qualidades, mas foram “laçados” pelo kung fu e continuam treinando.

A medida que avançarem nas faixas cada um deles irá apresentar um kung fu pessoal, com katis que serão “a expressão de sua personalidade”, como repetem meus professores. No kung fu não existe, ou não deveria existir, o feio e o bonito: alguns vão executar suas formas como verdadeiros “bailarinos”, outros como um guerreiro em batalha, mas haverá os que parecerão um escultor suando e lutando dolorosamente com uma imensa pedra. Alguns permanecerão no tatame para superar seus limites, outros estarão lá simplesmente porque o kung fu os deixa felizes.

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Sempre me vejo nos novos alunos. Até hoje me considero uma recém chegada; a sensação de estar no limiar de algo desconhecido é uma constante, pois não sei como meu corpo e minha cabeça vão se comportar no treino. (Passei anos sendo uma cabeça que arrastava um corpo.)

O “meu” kung fu pode se expressar de formas muito diferentes, algumas vezes por minha própria intervenção e outras por razões que não posso controlar; uma temporada pode ser de evolução constante e a outra pode ser uma caminhada penosa que só pode ser trilhada com disciplina: igualzinho à vida! Então seja feliz com o seu kung fu, não deixe ninguém mexer com ele.

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