Cultura
Comentário 1

A Lei da Anistia, o Perdão, o Buda e o Lado Negro

Por força de uma livre associação relâmpago, uma imagem compartilhada hoje no Facebook por uma criatura na qual admiro o olhar enviesado ao mundo e a ironia, o artista Sami George, me remeteu diretamente ao relatório da Comissão da Verdade divulgado esta semana. A respeito da revisão da Lei da Anistia, o ministro Marco Aurélio Mello disse, em tom elogioso, que ela “significa perdão para ambos os lados” (no caso, um lado é o dos resistentes anti-regime ou “terroristas” e o outro o dos criminosos e assassinos de Estado ou “defensores da Pátria”). Eu senti um inequívoco sabor de cristianismo darkside de ocasião na sua fala – tal qual um soldado do “Império” à serviço do Imperador Palpatine: Como se pode perdoar vítimas? E por que se perdoaria assassinos cruéis?

Uma Nação para merecer esse nome não deveria agir como Cristo e oferecer a outra face a quem mata seus filhos os esfolando e sufocando ao arrastá-los no chão de uma propriedade do Estado, a Base Aérea de Santa Cruz, com a boca amarrada no cano de escapamento de um caminhão (Stuart Angel) ou tortura mulheres grávidas as colocando nuas diante de uma cobra e de homens cruéis – pagos com os impostos dela, de seu esposo e de seus pais – por horas a fio (Miriam Leitão).

É preciso que esta Nação e todos os seus cidadãos entendam que essas bestas e seus auxiliares não ficaram no passado; eles permanecem aqui, eles são nosso vizinho, nossa prima, seu médico, o padeiro, o amigo da sua irmã, meu cunhado, os cidadãos “de bem” “da porta pra fora” que deduraram, difamaram, denunciaram, agrediram, violentaram, torturaram e mataram seu filho ou a sua esposa por doença da alma, por tara, por encarnarem o mal feito carne; mas também por medo de serem punidos, por covardia, por egoismo e fraqueza moral, por temerem serem identificados com algo ‘fora da norma’ (o comunista, o clandestino, o viado, o maconheiro…o diferente – assim como os alemães de bem fizeram com seus vizinhos e amigos judeus com os quais confraternizavam até meses antes).

A besta humana é uma entidade histórica, somos todos nós, desde que nos reconheçamos no outro, em suas fraquezas e maldades de varejo. O medo, a ameaça e o terror da perda de segurança, de dinheiro ou posição ou o pavor de algo indefinido encarnado no “outro” toca com seu condão os seres em momentos extremos, nas guerras, nos regimes totalitários, nos pogroms, nas jihads…E torna opostos seres tão semelhantes na fumaça do dia-a-dia, no bate papo do bar, no escritório, na pelada semanal, na missa, na reunião de condomínio: uns crescem em humanidade; outros em bestialidade.

O que foi feito pelo Estado brasileiro em parte dos anos 60 e nos 70 não merece perdão, não merece esquecimento; uma Nação ou um homem que esquece sua história jamais saberá qual o rosto de sua fera particular. E se não se reconhece a fera, não se pode lutar, superar ou mesmo conviver com ela.

Ao ver a imagem de um buda com a máscara que lembra a dos stormtroopers de Guerra nas Estrelas fiz um haikai automático:

buda tem todas as faces

se não olharmos a fera no espelho

ela nos come

Anúncios

1 comentário

  1. Como perdoar o imperdoável? Lembremos Shakespeare: “Todo mundo é capaz de dominar uma dor, exceto quem a sente”. A família Angel jamais se desprenderá da dor quando imagens de Stuart sendo torturado lhes vier à mente. Ser feliz é encontrar força no perdão, diria Pessoa, mas em outro contexto, não vale quando se enfrenta “o mal encarnado em carne”. Punir o mal é fundamental para que não retorne.
    O texto é ótimo, as imagens multifacetadas excelentes.
    Parabéns!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s