Literatura
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Idoru

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Classificado como um gênero datado por seus próprios criadores, Bruce Sterling e Willian Gibson[1], a ficção cyberpunk continua a influenciar a cultura pop. Filmes recentes como Elysium, de Neil Blomkamp, e Transcendence, de Wally Pfister, para não falar dos clássicos Blade Runner e Matrix que permanecem cultuados, são tributários de sua estética e temática, que podem ser pobremente resumidas como uma mistura viciante de alta tecnologia, mood punk e distopia. O estilo também sobrevive na rede como tema de uma dezena de tumblers e sites. Depois de Neuromancer, de 1984, obra símbolo do cyberpunk, é Idoru, o segundo livro da Trilogia da Ponte[2], que para mim reúne o maior número de influências do estilo.   Lançado nos EUA em 96 e editado no Brasil em 99 pela Conrad (e logo esgotado), Idoru pode ser lido como um suspense noir ou como um romance filosófico – como, aliás, considero quase todos os livros de sci-fi.

A estrutura da obra alterna entre as histórias de Chia Pet Mackenzie e de Colin Laney. A adolescente Chia é membro da seção de Seattle do fã-clube da mega banda Lo/Rez. Ela é encarregada de viajar ao Japão para investigar rumores de que o cantor Rez planeja se casar com Rei Toei, estrela da música pop. A questão é que Rei não é uma mulher, ela é uma idoru (ídolo em japonês), uma personalidade sintética, uma IA, capaz não apenas de aprender, generalizar e extrapolar através de dados novos – e ela opera na totalidade do cosmos digital – mas também dotada de autoconsciência.

O mistério de Rei pode ser arranhado pela sua mistura de inocência, empatia e curiosidade infantis (que refletem um “ser” ao mesmo tempo intocado pela dor, maldade e horror do mundo e violentamente faminto de humanidade) com uma carga avassaladora de memória emocional, intelectual e cultural assimilada por uma espécie de ubiquidade virtual. Esse desenho de personalidade é indicado por Gibson em detalhes como o da forma como Rei produz seus clipes a partir de projeções de seus sonhos.

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Na viagem, Chia conhece a amante de um gangster atravessador de artefatos para a Kombinat (a máfia russa) e se envolve em um imbróglio que tem como pivô um módulo de nanotecnologia ilegal capaz aparentemente de criar tanto um prédio como um corpo humano. Ela é ajudada por um garoto otaku e seus companheiros da “Cidade Murada” e por sua amiga Zona Rosa, persona virtual de uma mexicana também membro do fã-clube.

Laney, por sua vez, é um órfão que foi cobaia de experiências com drogas na infância e desenvolveu uma habilidade para detectar “pontos nodais” no caldo de dados aparentemente desconexo e trivial da rede. Esses “pontos nodais” seriam uma espécie de  massa ou cruzamento aleatório de informações que indicariam a ocorrência de alguma alteração ou evento crítico na vida de um cidadão comum ou de celebridades, sub-celebridades e empresas, por exemplo.  Só que a leitura de Laney desses eventos está mais para a de um vidente do que para a de um analista de dados ou um cool hunter.

Quando a história começa ele acabou de ser demitido do Slitscan, um conglomerado de mídia especializado em destruir reputações – um análogo dos programas e sites de celebridades mundo-cão de hoje -, e aceita um trabalho em Tóquio no staff da Lo/Rez sob a coordenação de Blackwell, o chefe da segurança. Sua função é rastrear “pontos nodais” nos dados de Rez que ajudem a impedir que ele concretize seus planos de casar com Rei Toei, que se manifesta ao mundo como um holograma. (Idoru é um livro cheio de comentários ácidos sobre a indústria do entretenimento).

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Uma das características de Gibson é sua capacidade de construir cenários climáticos a partir de referências fetichistas de materiais, superfícies e artefatos. Em Idoru, o mundo real e o virtual atingiram um ponto de proximidade em que a distinção plástica se diluiu ao máximo: Chia ganhou do pai um programa da cidade de Veneza compactada no qual ela costuma passear e a Tóquio reconstruída depois de um terremoto similar ao Big One é uma mescla de prédios velhos e de novos que se auto-modelam e adaptam. A Cidade Murada virtual (Kowloon Walled City), um território localizado no limbo da rede, teve sua arquitetura programada como uma cópia da real, que existiu em Hong Kong até a década de 90.

Lá em cima eu disse que o livro poderia ser lido como um noir ou como um romance filosófico. No primeiro caso todos os elementos estão presentes: suspense, encrencas fortuitas, mulheres perigosas, personagens ambíguos, perseguições, anti-heróis, corporações mal intencionadas… Já a segunda chave, a do romance filosófico, é mais um reflexo de uma das influências-obsessões de Gibson: a ideia de que programas podem obter a senciência e a autoconsciência. A premissa é um dos motivos mais recorrentes da ficção científica, presente em obras que vão dos livros de Asimov e Arthur Clarke a filmes como Tron e IA, este último baseado em um conto de Brian Aldiss.

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O desejo de encontrar a autoconsciência, ou pelo menos a inteligência, em algo que não seja humano é, quem sabe, tão antigo quanto a própria autopercepção do homem. Na Grécia, Afrodite transformou a estátua moldada por Pigmalião em mulher e no século XVII Gottfried Leibniz criou uma máquina que realizava somas e subtrações por via de cilindros móveis. A distância entre o mito grego e a invenção do matemático e filósofo poderá ou não um dia ser extinta.

Os teóricos da inteligência artificial e da filosofia da mente resumem a questão da autoconsciência como algo que implica não apenas a capacidade de perceber variados estados mentais e suas transições, mas também, e obviamente, a geração desses estados. Até agora a ciência não conseguiu fazer com que suas Redes Neurais Artificiais, as chamadas RNAs, reproduzam a qualidade imponderável, o “je ne sais quoi”, que distingue a conexão de um espírito com um corpo.

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A seleção de imagens para este artigo (ou a curadoria, como os modernos chamam hoje) foi feita nos endereços abaixo, a maior parte tumblers dedicados à estética cyberpunk.

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Otaku Gangsta

Neuromaencer

Andrewberg

Sink00

Bravecadet

_____________________

[1] Em declaração transcrita na matéria Dark Arts, publicada em março de 2014 na revista The Verge, Gibson afirma que o gênero é uma “relíquia da era pré-internet” – o que eu parcialmente discordo. Muitos dos temas do cyberpunk, como o uso militar da tecnologia, a onipresença da conectividade e o poder de manipulação das corporações, são atualizados na mais recente trilogia do escritor, a Blue Ant, ambientada nos anos 2000.

[2] Trilogia escrita na década de 90 por Gibson e composta pelos livros Virtual Light, Idoru e All Tomorrow’s Parties. Apenas Idoru foi editado no Brasil.

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