Literatura
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O Coração das Trevas

Portrait Of Joseph Conrad

Coração das Trevas é um libelo contra o imperialismo e um tratado sobre o lado sombrio da natureza humana. Escrito sob a influência de um dos genocídios menos lembrados da história, a criação do Estado Livre do Congo, o livro inspirou obras como os poemas The Waste Land e The Holow Man de T.S. Eliot e o filme Apocalise Now de Francis Ford Coppola.

Minha primeira imagem de Joseph Conrad foi um retrato no estilo bico de pena que meu avô paterno tinha emoldurado (ele também havia emoldurado uma foto de Tolstoi tirada de uma revista que durante minha adolescência decorava vaidosamente minha estante e causava ótima impressão nos colegas). Para mim, aquele senhor parecia um mosqueteiro velho com um impressionante ar de dignidade e quando minha avó disse que ele havia escrito um de seus livros prediletos, Lorde Jim, associei o nome ao quadro automaticamente. Lorde Jim foi o primeiro livro que li de Conrad e muitos anos se passaram até que eu já adulta lesse O Coração das Trevas.

O livro é uma novela, pouco mais de 100 páginas em média, na qual nenhuma palavra ou sinal gráfico está fora do lugar. A impressão é a de que a obra saltou para o papel em sua forma final. Seu autor é considerado um dos grandes estilistas da prosa inglesa, o que por si só dá a medida de seu gênio: polonês, só aprendeu o inglês depois dos 20 anos quando decidiu continuar sua carreira de marinheiro na Inglaterra. Assim como toda a obra do escritor, o livro é fruto de sua experiência de vida. Em 1890, Conrad passou seis meses na África como empregado da ‘Sociedade Anônima Belga para Serviço no Alto Congo’. Inicialmente contratado para descarregar mercadorias nos portos ao longo da costa acabou comandando um vapor fluvial.

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Conrad retratado por Walter Tittle  (a mesma gravura que meu avô possuia uma cópia)

Algo no sombrio Rio Congo, o mais profundo do mundo, no entanto, afetou o marujo experimentado (Conrad começou sua vida no mar ainda adolescente) que já havia navegado três oceanos e incontáveis mares e se metido nas mais diversas aventuras. Mesmo à custa de prejuízos financeiros, ele abandonou a companhia e retornou a Londres. Nove anos depois O Coração das Trevas era publicado em capítulos na Blackwood Magazine.

O relato do marinheiro que consegue o trabalho de capitão de vapor em uma companhia que explora marfim às margens do Rio Congo e termina por confrontar a face mais selvagem da civilização inspirou obras de escritores como Graham Greene e T. S. Eliot, que escreveu seus poemas The Waste Land e The Hollow Man sob influência do livro. Décadas depois a narrativa seria atualizada pelo diretor Francis Ford Coppola e transposta para o Vietnam em ‘Apocalipse Now’, com Marlon Brando incorporando a insanidade xamânica do Capitão/Sr. Kurtz – no livro, o agente da companhia invejado por todos como a síntese da eficiência progressista e dos talentos morais e intelectuais do homem que acaba sendo adorado como um deus das trevas pelos nativos.

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Brando como o Capitão Kurtz e sua “cabeça de marfim” em Apocalipse Now

O impacto causado na imaginação de escritores e leitores não impediu que o livro e Conrad fosse alvo de acusações de sexismo e racismo. A primeira, derivada da maneira jocosamente condescendente com que trata as mulheres na obra, não merece ser comentada, já que o escritor está na companhia mais do que ilustre de Dante, Balzac e Dickens para citar só os que me ocorrem no momento.

A acusação de racismo é mais complexa e me parece fruto de interpretações caolhas da obra. Conrad era um anti-imperialista militante e o livro é um libelo contra a sanha de um sistema que aliava a arrogância assassina da lógica colonial à sistematização da política do lucro a qualquer custo do capitalismo.

Sua visão dos africanos os mostra como “seres naturais” que, arrancados de sua homeostase nativa e submetidos a um poder cruel, “perdidos em ambientes desagradáveis” e “alimentados com comida desconhecida”, se tornam espectros que lutam em meio ao horror para manter sua natureza original. O chefe e seu grupo de nativos canibais que prestam serviço no vapor, famintos pelo fim de seus mantimentos de carne de hipopótamo, são descritos pelo narrador como tendo infinitamente mais dignidade e contenção que os gerentes da companhia.

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Vapor no Rio Congo semelhante ao guiado por Conrad e seu alter ego Marlow

O estado de coisas narrado por Conrad no livro vai muito além da denuncia da rapinagem e maldade institucionalizadas e avalizadas como filantropia por governos e bons burgueses europeus. Ele aponta uma lupa darwiniana sobre o homem branco e civilizado e o que ela revela é um aleijão em sua alma. Aleijão que longe dos escritórios e salões, longe “do policial e do açougueiro” da esquina se mostra sem disfarces.

O livro foi também ao longo de décadas uma peça de esclarecimento sobre um episódio da história africana e europeia que pouca gente conhece: a existência do ‘Estado Livre do Congo’, uma aberração que durante três décadas – e ainda depois de seu fim oficial – assassinou a metade da população da região, algo estimado em 10 milhões de homens e mulheres.

Após ser esquadrinhado pelo explorador e jornalista Henry Morgan Stanley , um epítome da pilhagem disfarçada de ação civilizatória, a região do Congo apareceu a certos europeus como uma sedutora mina de ouro pronta a se entregar ao primeiro cavaleiro que dela se apossasse. Os relatos de Stanley atiçaram a cobiça de diversos empresários e aventureiros, mas um deles possuía as mais altas recomendações: o Rei Leopoldo II da Bélgica. Para angariar apoio, o rei teve a ideia de disfarçar seu projeto com o verniz da caridade cristã. Criou em 1876 a ‘Associação Internacional para a Exploração e Civilização da África’, uma organização que se propunha a encetar uma cruzada que levaria a luz do progresso e dos bons costumes de forma compulsória aos “selvagens” em troca, apenas, do poder sobre seu território, suas riquezas, sua carne e sua alma.

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Cartão mostra Stanley vestido como quando encontrou Livingstone

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Mapa feito por Stanley, de 1877,  mostra o curso do Rio Congo

Pessoas rezavam ao redor do mundo pelo sucesso da cruzada e jornais noticiavam que os comerciantes, missionários e aventureiros levavam a África “as novas ideias sobre a lei, a ordem, a humanidade e a proteção para os nativos”. Com a ajuda de Stanley, o golpe de Leopoldo conseguiu o aval político e o Congo foi reconhecido como área de comércio livre internacional administrada pela associação do rei, que o rebatizou com o nome de ‘Estado Livre do Congo’.

O que veio a seguir foi um genocídio que nada deixa a dever aos grandes extermínios da historia. Para extrair o marfim e a borracha de maneira livre, Leopoldo declarou que todas as terras “desocupadas” do Congo eram sua propriedade. Milhões de nativos tiveram que deixar suas vilas e casas, perdendo suas plantações, bens e locais sagrados. Um novo ciclo de escravidão se iniciou: o estado do rei decidiu cobrar impostos dos congoleses que trabalhavam na extração de borracha e, como não havia moeda, as taxas eram pagas com trabalho.

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As mãos-moedas decepadas por ordem dos agentes do progresso

A terra foi loteada por companhias e invadida por centenas de gerentes, agentes e soldados. O método de repressão desses prepostos a quem não cumprisse as abusivas cotas de coleta era cruel e institucionalizado. Incluía o estupro e o rapto de mulheres, que eram trocadas pela borracha, a dizimação de vilas inteiras como exemplo e uma prática que se tornou símbolo da crueldade cometida em nome da civilização: o uso de mãos decepadas como certificação do uso racional e eficiente de munição para matar os nativos que ficassem abaixo da cota. Cada cartucho usado para matar um congolês devia ser acompanhado da mão do cadáver como prova. Como alguns dos soldados eram punidos caso não cumprissem a determinação era comum a mutilação de adultos e crianças vivos como forma de acumular os membros; com o tempo as próprias mãos passaram a ser usadas como moedas.

A revolta mundial com a divulgação das atrocidades fez com que vinte e quatro anos após sua instalação oficial o ‘Estado Livre do Congo’ passasse a ser uma possessão belga e não mais o campo de horrores particular do Rei Leopoldo. Mas os administradores da colônia permaneceram sendo em sua maioria os mesmos da época do rei e mantiveram o sistema de lucro funcionando ainda por muitos anos. (Cem anos depois, a face da exploração na África continua a mesma. Basta uma visita a países como Angola e uma observação superficial da distância abissal entre o discurso e a prática de grandes construtoras brasileiras que operam no país…).

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O marfim e a borracha eram chamados de o “ouro branco” do Congo

Em O Coração das Trevas, Conrad dá voz ao marujo aventureiro Marlow, que vê sob a tênue maquiagem de emissários do progresso e da caridade sórdidos bucaneiros “cuja conversa é indiferente sem bravura, ambiciosa sem audácia e cruel sem coragem”. O contraste entre a natureza selvagem e obscura da África profunda que segue seu curso indiferente aos homens e a selvageria e obscuridade dos homens indiferentes a seus iguais salta das páginas. Mesmo inescrutável, a natureza parece gritar seu propósito superior, enquanto a faina dos homens não tem maior objetivo do que suas quimeras de dinheiro e poder.

Para Conrad a medida da civilização está ligada à capacidade do homem de preservar, mesmo sob condições extremas, o que o distingue do bárbaro. Destinada a ser o fiel da queda humana, essa ética se reflete em ações rotineiras no trabalho e no autocuidado. Marlow se espanta constantemente com a falta de sentido e de organização nos postos da companhia, onde crateras são escavadas sem nenhum propósito aparente e suprimentos urgentes nunca chegam, e julga positivamente um funcionário por sua aparência impecável: “[…] Em meio à grande desmoralização daquela terra, cuidava de sua aparência. Isso é fibra. Aqueles colarinhos engomados e peitilhos de camisa rendados eram atos de caráter”.

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Conrad e seu rosto de quem conheceu demasiadamente a alma do homem

Essa “qualidade” se manifesta na visão do escritor como um “freio” que, em sua forma genuína, é uma ferramenta moral inexistente na maioria dos homens – sendo sua falta compensada artificialmente em sociedade pelos mecanismos de constrição. Sua carência afeta indistintamente, como um selo de Caim, tanto os bestiais gerentes da companhia como o gênio culto, sensível e carismático do Senhor Kurtz. O que Marlow vê na selva do Congo é apenas um vislumbre da barbárie. As trevas e o verdadeiro horror são apenas sugeridos pela narrativa.

O fascínio de Marlow por Kurtz indica uma concessão de Conrad à grandeza independente de sua manifestação de luz ou de sombra. Em meio à vulgaridade e mesquinhez dos agentes, a energia psíquica autossuficiente e o delírio teocrático de Kurtz sobressaem como um atestado da autonomia humana, resumida na descrição de Marlow do confronto: “[…] Eu tinha de lidar com um ser ao qual não podia apelar em nome de qualquer coisa superior ou inferior. Tinha, como os negros, que invocá-lo – a ele mesmo – à sua exaltada e incrível degradação”.

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[1] Famoso por encontrar nos confins da África o missionário e aventureiro desaparecido David (Dr.) Livingstone.

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