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O Sentido da Faixa Preta

Adotada apenas no século XIX como símbolo de maestria nas artes marciais, a faixa preta possui um sentido muito mais complexo do que suspeita o senso comum.

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Alguns praticantes de artes marciais treinam por longos anos e alcançam um excelente nível técnico. Seus cinturões ou faixas pretas exibem as marcas que atestam o número de graus ou dan que atingiram e, do ponto de vista físico, sua energia, potencia e agilidade impressionam. Para eles, no entanto, o treino e a técnica vão significar sempre um meio para chegar a um determinado fim, seja a aceitação social, a projeção de uma imagem de poder e sucesso ou a melhoria da autoestima.

Esses praticantes por alguma razão não descobriram ao longo de sua jornada uma joia escondida, que é ao mesmo tempo a “técnica” mais difícil e a que traz maior realização: o entendimento de que a pratica da arte é um fim em si mesmo e seu grande ensinamento é uma unidade dualista (como o tao): a percepção de que somos simultaneamente uma singularidade integrada de corpo mente e espírito e parte de um todo com o qual nos comunicamos. Esse ensinamento se torna objetivo por via da busca continua do conhecimento de si mesmo, do automelhoramento, que tem como consequência direta o serviço ao mundo.

Para muitos praticantes essa conversa pode soar como uma bobagem mística vazia e banal, mas ela é a imensa raiz que sustenta o tronco das artes marciais em seu berço, o Oriente. E, embora a faixa preta seja um símbolo tardio, adotado no século XIX e difundido por Jigoro Kano, o sistematizador do judo, é a essa raiz que seu significado remete.

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Ku, o vazio, a relatividade que é um reflexo da lei da causa e efeito

 

Muitos textos sobre arte marcial registram que a cor preta da faixa reflete a ideia da morte, da escuridão e do desconhecido. Os samurais costumavam usar trajes pretos e o Bushido, seu código moral, tem como eixo principal o destemor à morte. Mas alcançar tal estado só é possível de maneira paradoxal, através do adentramento na vida. A disciplina marcial, o desenvolvimento da percepção da energia (chi, ou ki) e a meditação, repetidas diligentemente por um praticante sério permitem que ele se torne cada vez mais desperto, atento ao instante e a todas as suas possibilidades, mergulhado na vida.

Essa atitude diante da morte guarda também uma relação com o conceito budista de Ku, tradução do sânscrito sunyata, que significa o vazio. Ku reflete a ideia de relatividade da existência, da causalidade e da interdependência de todas as criaturas na – e com – a natureza. Assim, no caminho dos guerreiros, o destemor à morte se tornava também amor à vida, à sua riqueza e beleza escondidas que se mostram não apenas no perfeito, mas também no imperfeito, no falho e no inacabado – espelhos do homem.

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O tatame do dojo nos livra dos condicionamentos e nos ensina a ser humildes

 

Hoje, o dojo não é um espaço de preparação para a guerra, mas o seu sentido profundo e espiritual pouco mudou. Antes de qualquer coisa, o tatame traz para aqueles que o abordam com coragem a humildade. A coragem aqui não é a bravura beligerante que nos dispõe a atacar e a ser atacado; a batalha é travada em nosso interior. A prática da arte marcial desconstrói nossa autoimagem, formada pelos outros e por nós mesmos para nos proteger ao longo da vida, e nos livra dos condicionamentos. E, na maioria das vezes, a imagem que se reflete nos espelhos do dojo e nos olhos de nossos professores e companheiros de treino não é a que gostaríamos de ver.

Lidar com a quebra de expectativas – a nossa e a dos outros -, com a frustração e a aceitação de que somos imperfeitos e limitados é o primeiro ensinamento. Depois vem outro mais duro: criar intimidade com um estranho esquecido: nós mesmos. Muitas vezes ao ser arremessada no tatame a “persona” cuidadosamente construída do adulto firme e seguro dá lugar ao menino humilhado e magoado derrubado pelos colegas no recreio. Ou o cidadão tolerante e compassivo vê-se subitamente tomado de uma ira primal ao ser atingido por um chute e arremete com violência.

Meus mestres costumam dizer que uma das maneiras mais rápidas de conhecer o temperamento de um aluno, ou seus traços mais marcantes no enfrentamento da vida, é observar como ele luta. Quando o praticante se prepara para um combate se apresenta sem a fantasia diária. O dojo é uma espécie de mundo alternativo. Lá não existem, ou não deveriam existir, as distinções padronizadas do mundo comum, o homem ou a mulher bem sucedidos, o perdedor, o feio, o galã, e muitas as outras, mais sutis e menos aparentes.

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No combate se confronta tanto a vitória como a derrota. Foto KungFuFan

 

No local de treino todos são iguais em suas diferenças e estão profundamente solitários em seu combate, sem a proteção do cargo, da família, dos amigos, do sucesso e mesmo do fracasso do outro lado da porta. A beleza de um dojo está no sentido de pertencimento que une pessoas que têm em comum a experiência de saber o que significa estar sozinho consigo mesmo em uma situação limite na qual só se pode contar consigo próprio.

A luta é a síntese da arte marcial. Todo o trabalho físico de fortalecimento e condicionamento, de técnicas, formas com armas e de mãos de um estilo e o treinamento da mente e da respiração estão à serviço do combate. Isso não significa que a natureza da arte não possa ser revelada e praticada em um treino de forma (kati ou kata em japonês); a intenção está presente em tudo. Mas no combate o praticante põe à prova a sua própria natureza de maneira radical – e isso não está ligado a uma virtual agressividade. Conseguir em um treino duro, após a repetição de vários katis, manter a concentração e a energia graças à força de sua intenção é desafiador; fazer isso diante de um adversário que muitas vezes é superior a você é duas vezes mais difícil. Na luta lidamos com os dois lados da moeda: a vitória e a derrota e aprendemos a “deixar passar” ambas. Assim como no zazen, o combate também deve ser mushotoku, esforço permanente sem finalidade e sem proveito.

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Zanshin o espírito que permanece na atenção justa mesmo depois das ação

 

Um faixa preta que entendeu o verdadeiro sentido de sua técnica vai cristalizando essa compreensão ao longo de seus anos de treino. Para os orientais a pratica é uma forma de partilhar a natureza de buda (e do tao) penetrando em seu fluxo, que nada mais é do que a percepção da conexão profunda entre nós e a natureza. Mas essa conexão só se torna real se a prática se tornar a própria vida. Os japoneses[1] particularmente, possuem vários conceitos que resumem o sentido e o resultado de uma prática contínua.

Dokan significa repetição, mas também essência;

Genjo é o poder que se adquire com a prática e se torna parte de sua natureza;

Zanshin é a palavra que resume o espírito que permanece na atenção justa, que não esmorece durante ou depois da ação;

Fuse é o dom sem objetivo pessoal, que não é nem matéria nem espírito.

Embora todos esses conceitos remetam à ideia de desenvolvimento de um “poder” que pode ser notado ou sentido de maneira objetiva ou intuitiva pelos outros – muitos se referem a ele como um “carisma”, “presença”, “aura”, “autoridade” ou “energia” – o real valor dele é algo privado e interior e está menos ligado a uma projeção física do que ao desenvolvimento de traços de caráter como a compaixão, a lealdade, a coragem e a generosidade; “não se trata daquilo que fazemos questão de mostrar aos outros. É secreto”. Tem a ver com autonomia, com agir segundo sua própria natureza e espírito.

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O kanji de “espírito” ou “energia”. Fonte danielbonfimleal.tumblr.com

 

A faixa preta pode pesar muito. Assim como na prática do zazen (a meditação zen budista) existe o conceito de zafu[1] gaki, zafu infernal, que faz referência a uma prática em que somos confrontados com nossos demônios interiores, poderíamos pensar no de tatame gaki. Esse confronto ocorre desde a faixa branca, mas na faixa preta ele se torna mais duro, pois muito provavelmente o praticante vai se dar conta de que o que o pedaço de tecido em volta de sua cintura projeta está muito longe do que ele é capaz de alcançar.

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A faixa preta representa o peso do compromisso moral do praticante

 

É hora de enfrentar demônios maiores e mais dissimulados do que os das faixas anteriores, a falta de confiança, a autopiedade, o desconforto e a frustração: o autoengano, a vaidade e a acomodação moral. É o momento do praticante olhar para seu espelho interior, aceitar a imagem que ele reflete e persistir tentando torná-la mais próxima do espírito de buda, de deus ou do nome que ele chama o divino. A faixa preta tem valor não como uma bengala externa que justifica quem a porta frente aos outros, mas como um lembrete mental de que ela é o símbolo de um caminho que só vai fazer sentido se continuar a ser trilhado.

Se você se interessa por artes marciais e espiritualidade oriental conheça o blog Zen Kung Fu e curta a sua página no Facebook

__________________

[1] Por razões históricas, políticas e culturais a filosofia marcial foi muito mais preservada e enriquecida no Japão do que na China seu berço.

[2] Almofada redonda utilizada para meditar.

 

Zen Kung Fu

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Ana Calazans

Alguns praticantes de artes marciais treinam por longos anos e alcançam um excelente nível técnico. Seus cinturões ou faixas pretas exibem as marcas que atestam o número de graus ou dan que atingiram e, do ponto de vista físico, sua energia, potencia e agilidade impressionam. Para eles, no entanto, o treino e a técnica vão significar sempre um meio para chegar a um determinado fim, seja a aceitação social, a projeção de uma imagem de poder e sucesso ou a melhoria da autoestima.

Esses praticantes por alguma razão não descobriram ao longo de sua jornada uma joia escondida, que é ao mesmo tempo a “técnica” mais difícil e a que traz maior realização: o entendimento de que a pratica da arte é um fim em si mesmo e seu grande ensinamento é uma unidade dualista (como o tao): a percepção de que somos simultaneamente uma singularidade integrada de…

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