Literatura
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Território Fantasma

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Música, drogas, religião, violência, tecnologia, conexões, dinheiro. Cada personagem de Território Fantasma, de Willian Gibson (Aleph), segundo livro da Trilogia Blue Ant, parece ter um “poder” específico, como um RPG que rodasse em um cenário atual com um foco estranhamente diferente. A história transcorre em algum momento pós 11 de Setembro, nos primórdios da Guerra do Iraque, mas o escritor organiza as referências de maneira a criar um choque entre motivações, ferramentas e climas que poderiam se encaixar tanto na época da Guerra Fria como num futuro próximo.

O livro alterna três núcleos de personagens. O de Hollis Henry, jornalista bissexta e ex-vocalista do Curfew – uma banda indie dos anos 90 – gira em torno de produtores de arte locativa, Bobby Chombo, um gênio da computação geoespacial, e Humbertus Bigend, magnata megalomaníaco, dono da agência Blue Ant e da revista Node, que a contratou para uma matéria de cultura, mas que na verdade quer outra coisa. O de Milgrim, um viciado em ansiolíticos e analgésicos com talento para decodificar linguagens cifradas, e de seu raptor, Brown, aparentemente um mercenário mezzo bruto, mezzo racional com tiques de agente secreto. E finalmente o de Tito, um chino-cubano fluente em russo de uma vasta e competente família de “facilitadores”, que opera transportando informação confidencial, do “velho”, um misterioso ex-agente da CIA, e de Garreth, outro mercenário que gosta de esportes radicais e ioga.

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Bigend, Brown e o ex-agente estão, por razões diversas, interessados no carregamento de um container que está sendo deslocado pra lá e pra cá ao redor do mundo em navios e helicópteros ultramodernos. Hollis, Milgrim, Chombo, Tito e Garreth são as ferramentas que eles recrutam para chegar primeiro nele.

Todo mundo e tudo é monitorado todo o tempo por gadgets de navegação. Tudo é muito difuso e aberto à possibilidades: um geek paranoico pode estar envolvido com o mercado de armas, um velhinho indefeso pode ser a pessoa mais bem conectada e perigosa que você já encontrou e um magnata do marketing pode sofrer da síndrome do “Dr. Fantástico”. A própria ação que se desenrola não parece ter muita solidez e nos faz questionar se ao fim e ao cabo a roda do mundo não é direcionada por essas pequenas interferências “fantasmas” e não pelas grandes decisões dos estadistas. Elas seriam o análogo da imagem do bater de asas da borboleta na Teoria do Caos; só que uma borboleta enlouquecida.

Falar da maneira como Gibson utiliza as referências pop e tecnológicas é chover no molhado. Seu olhar sobre materiais cotidianos, como embalagens plásticas, roupas, armas e até decoração de ambientes, atualiza automaticamente nosso senso de presente. Ele, no entanto, não mira apenas na cultura média, mas também nas subculturas e em toda a sua complexidade crescente que tende a mesclar o velho e o novo. Uma das coisas que mais gostei em Território Fantasma foi a retomada da intrigante inserção dos encantados yorubás da Santeria cubana e do Vodoun do Haiti e da Louisiana como parte da ação – assim como já havia ocorrido em Count Zero. É com os “Guerreros” Elegua, Ogun, Oxossi e Oxun que Tito conta para se conectar com seu “systema”, com sua intuição e com seu corpo.

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Em entrevista pra a Wired, Gibson classificou o livro como uma sátira. E, de certa forma, ele se insere numa corrente satírica pós-moderna aberta nos anos 60 por Kurt Vonnegut e Thomas Pynchon e exercitada mais recentemente por Don DeLillo. O primeiro livro da Blue Ant, Reconhecimento de Padrões, lançado no Brasil em 2003, alcançou o quarto lugar na lista do New York Times e foi eleito livro do ano pelo Los Angeles Times. Território Fantasma foi recebido com o mesmo entusiasmo nos EUA.

Gibson organizou sua produção de ficção longa em três trilogias que partem do futuro em direção ao presente. Neuromancer, seu primeiro livro e o que abre a Trilogia do Sprawl, fez dele (ao lado de Bruce Sterling) o criador do cyberpunk e é de longe o que mais gosto (lido na virada dos 80 para os 90). Dos cinco livros que li dele – todos os editados no Brasil[1] -, Território é o que considero menos fluido e o que tem o argumento menos bem resolvido. Mas, como diz àquele ditado, algumas coisas são como namoro e pizza: mesmo se é ruim é bom.


[1] Os três da Trilogia do Sprawl, Neuromancer, Count Zero e Monalisa Overdrive; Idoru, segundo livro da Trilogia da Ponte, e Reconhecimento de Padrões. A exceção de Idoru, lançado pela Conrad, todos foram editados pela Aleph.

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