Literatura
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1Q84: Realismo, Idealismo e Romantismo

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Em cerca de 1.500 páginas divididas em três tomos, Haruki Murakami consegue a proeza de condensar de forma saturada em 1Q84 uma teia de pistas que desembocam em lugar algum ou em múltiplos escaninhos coloridos do que se convencionou chamar de real. A obra não é fácil de enquadrar e pode ser lida como um suspense quase policial, uma ficção fantástica ou um romance.

Eu a li como uma história de amor e também como uma novela psicológica, uma narrativa de personagens, à maneira dos romances do início do século passado em que os heróis, heroínas e antagonistas iam tomando forma a partir de nuances de comportamento muitas vezes triviais – Murakami já disse ser um admirador de Fitzgerald e foi bom ter encontrado no volume 3 uma indicação dessa chave de leitura quando a heroína lê Em Busca do Tempo Perdido, de Proust, enquanto está escondida.

O argumento, a fabulação, o frescor dado à mitologia japonesa, o tratamento naturalizado de temas como sexo e morte, a ideia de realidades alternativas compartilhadas… Tudo isso é tratado no livro com a mão segura de um contador de estórias experimentado, mas estão a serviço da singularidade romântica: algo profundamente desejado e alimentado consciente e inconscientemente a cada respiração ao longo de 20 anos – o amor dos protagonistas Tengo e Aomame – está fadado a se tornar “real”, não importa o quanto o mundo pareça ter se distorcido ou perdido sua lógica e previsibilidade e mesmo que as forças que tecem a vida – o destino, a realidade – pareçam ter desenhado outros planos.

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A rotina de Aomame (ervilha em japonês), uma professora de educação física, praticante de arte marcial e assassina, é detalhada ao longo das páginas, assim como a de Tengo Kawana, professor de matemática sem ambição, campeão de judo e escritor. Quando criança, Aomame sofria o constrangimento diário de ser parte de uma família adepta das Testemunhas de Jeová. Assediada na escola e ignorada em casa era o oposto de Tengo no colégio:gênio, popular e esportista, mas obrigado diariamente a engolir a vergonha ao ser arrastado pelo pai em seu trabalho de cobrador. Um único contato, um aperto de mão, foi o evento que alterou suas vidas e, suspeita-se, também a realidade.

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Antes de entrar em 1Q84, Aomame escuta no taxi a Sinfonieta de Janacek

 

A história começa 20 anos depois, quando, a caminho de um trabalho como assassina, Aomame é obrigada a pegar um atalho. Com o passar dos dias ela passa a notar pequenas mudanças na realidade, que culminam com o aparecimento de duas luas no céu. Ela decide então dar um nome a este mundo alterado e o chama de “1Q84” – expressão formada pelo ano em que a historia se passa e a letra “Q”, de questão, problema, dúvida.

Em paralelo, Tengo é chamado para ser ghost writer de um livro chamado “A Crisálida de Ar” escrito por uma adolescente, Eriko Fukada ou Fukaeri.O livro conta como foi sua infância em uma seita religiosa profundamente fechada e poderosa, a Sakigake, e seu contato com o “povo pequenino”. Depois de receber a solicitação de matar o líder da seita, Aomame se vê enredada ainda mais nessa realidade paralela ameaçadora e passa a se conectar de modo surpreendente com Tengo, o garoto que conheceu no colégio e nunca mais viu.

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Todos os personagens criados por Murakami têm vida e autonomia, de Tamaru, o guarda costas frio, letal e de eficiência sobre-humana que é um gay conservador e monogâmico e costuma citar Tchecov e Tolstoi, ao detetive Ushikawa, de aparência repugnante, inteligência dedutiva brilhante e dolorosamente solitário. Com eles, Murakami nos diz que todos merecem uma investigação humana completa e que as pessoas são infinitamente mais polissêmicas do que aparentam.

Uma outra porta de leitura de 1Q84 que me interessou foi a discussão subliminar sobre realismo e idealismo. Por que um tem sempre que implicar na não existência do outro? O mundo, a realidade, não poderia ser concomitantemente algo criado por nossas mentes e também algo com existência independente delas? Aomame e Tengo conseguem criar um vínculo e se comunicarem, a despeito da distância, do tempo e dos obstáculos, e a história deles é construída pelo desejo, pela energia de suas mentes e corpos.

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Por outro lado, a “objetividade” do real em “1Q84” não deixa dúvidas: há dor, morte e sofrimento moral. E há também pequenos seres que saem de uma cabra e da boca das pessoas, duas luas no céu, pequenos doppelgangers incubados em crisálidas tecidas com fios invisíveis de ar… Sim, por que esses fatos haveriam de ser rejeitados pela razão se outros infinitos estranhos fatos são aceitos diariamente como reais? Quem nos assegura que não somos tecidos de acordo com desígnios que não temos sequer a capacidade de especular? Quantos dentre nós, quantos familiares, conhecidos, não perderam a estação ou decidiram por um atalho errado e permaneceram perdidos na “Cidade dos Gatos” para sempre?

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A ciência há anos propõe diversos modelos matemáticos que atestam a existência possível de universos paralelos. Um desses modelos, que se enquadra no grande guarda-chuva chamado de “teoria das cordas”, são as formas de Calabi-Yau; existem milhões de variedades matematicamente possíveis delas. Plasticamente elas se apresentam como formas geométricas tridimensionais que se contorcem formando uma espécie de flor com inúmeras superfícies internas e externas. Essas superfícies, ou pétalas, são as dimensões extras. Assim existe não apenas a possibilidade do universo estar em expansão e ser decididamente eterno e sem fim, como também a de que convivendo com essa incomensurabilidade existirem replicações infinitas dele; multiversos especulares. Não há nada que a imaginação humana possa criar que esteja fora do esquadro do real, simplesmente porque não sabemos com o que se parece ou o que é esse esquadro. Melhor seria, então, adotar o pragmatismo de Ushikawa:

Princípios e lógica não faziam surgir a realidade. A realidade vinha antes, e só depois apareciam o principio e a lógica. Por isso, Ushikawa decidiu aceitar a existência das duas luas no céu como um fato.

1Q84 termina (ou quem sabe ainda não) e as questões permanecem, assim como na nossa realidade.

* As imagens utilizadas neste post têm como fonte a página http://www.haruki-murakami.com/

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