Literatura, Traduções
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Lord Dunsany

Minha formação literária foi quase que inteiramente influenciada por meus avós paternos. Meu avô, jornalista e stalinista, cujo apreço pela literatura (um traço, aliás, pequeno burguês) só se comparava a seu gosto por uísque e salame, era amigo do editor José Olympio e recebeu durante parte de sua vida caixas de livros da editora. Herdei parte de sua biblioteca de Melviles, Dostoievskis, Gorkis, Steinbecks, Londons, Conrads…

Entre as décadas de 20 e 50 o mercado editorial brasileiro foi comandado por intelectuais heroicos como Monteiro Lobato e o próprio José Olympio que, com tradutores da lavra de Carlos Drummond de Andrade, selecionavam as publicações em um espectro canônico, mas excessivamente acanhado em minha opinião pernóstica. Assim, por alguma razão que me escapa, mas que suspeito tem a ver com uma predileção ideológica por uma escritura mais “realista”, muitas obras importantes da literatura fantástica ou, como chamam hoje, de fantasia, custaram a aparecer por aqui.

A leitura precoce de Borges e das Histórias Extraordinárias de Poe me fez ir pescando aqui e ali um conto do Hawthorne, do Wells, uma novela gótica, um livro do Haggard, mas só recentemente o mercado foi oferecendo, timidamente, mais opções.

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Um dos pais da fantasia juntamente com Edgar Allan Poe e autor de mais de 80 obras publicadas, Lord Dunsany teve uma vida semelhante aos personagens de histórias fantásticas. Nobre, herói de guerra e morador do castelo mais antigo da Irlanda, ele é o elo esquecido que inspirou J.R.R. Tolkien, C. S. Lewis e Neil Gaiman. Leia aqui duas histórias traduzidas do mestre.

Em parte por isto, só ouvi falar em Lord Dunsany há cerca de uns quatro anos quando comprei uma coletânea organizada pelo Bráulio Tavares na qual li o conto Carcassone. Agora, na Antologia da Literatura Fantástica de Borges, Bioy Casares e Silvina Ocampo editada pela Cosac Naify li Uma Noite na Taberna, uma espécie de micropeça em um ato, e resolvi ir atrás dele.

O que me surpreendeu de pronto foi o fato de um escritor que publicou mais de 80 obras em estilos como o conto, a poesia e o teatro e gozou de um sucesso relativamente alto em vida seja hoje praticamente desconhecido – e, pelo que li, isso não se aplica apenas ao Brasil; o espírito do tempo por alguma razão fantástica não o privilegiou.

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The Lady of Shalott (1888) de John W. Waterhouse:  temática dos pintores pré-rafaelitas é semelhante à de Dunsany

Inspiração para Tolkien, Lewis e Gaiman

Lord Dunsany (1878 – 1957) nasceu Edward John Moreton Drax Plunkett no último quadrante do século XIX de uma família irlandesa cuja genealogia é anterior às invasões normandas.  Décimo oitavo Barão de Dunsany foi o herdeiro do segundo título de nobreza mais antigo da Irlanda e habitava um castelo do século XII que é considerado a moradia habitada mais velha do país. Lutou como oficial na Guerra dos Bôeres e na I Guerra Mundial e foi exímio atirador, caçador, desenhista e um gênio do xadrez: chegou a empatar com o Grão-Mestre Capablanca. Além de tudo tinha porte de príncipe: era muito alto e muito bonito.

As lendas e o folclore irlandês, celta e do Norte Europeu, a mitologia grega e oriental, os romances de cavalaria e os contos de fadas dos irmãos Grimm e de Hans Christian Andersen foram sua inspiração. Mas, ao ler seus contos e histórias curtas logo se nota que a imaginação de Dunsany era uma fonte com manancial próprio. A força simbólica, a prosa, ora lírica, ora bem humorada, e a vivacidade de suas atmosferas o tornam um escritor cujo estilo aliava o dom para a criação de enredos maravilhosos com a elegância da escrita.

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Edição recente de The King of Elfland’s Daugther

Dunsany não é apenas considerado um dos pais da fantasia, juntamente com Poe, Willian Morris e Henry Rider Haggard; ele foi uma influência basilar para mitos como JRR Tolkien e C. S. Lewis. Estes eram admiradores não só de seus contos, reunidos em livros como The Gods of Pegana (1905) e The Sword of Welleran and Other Stories (1908), mas também de seu romance mais famoso, The King of Elfland’s Daugther, que conta a história de um casamento entre um homem mortal e uma princesa elfo. A inspiração de Lord Dunsany iluminou também as páginas de Arthur C Clarke, Neil Gaiman, Jorge Luis Borges, Ursula Le Guin e H. P. Lovecraft, todos credores confessos de sua magia.

Acesse aqui obras de Lord Dunsany em inglês 

Abaixo duas histórias de Lord Dunsany traduzidas por mim. Ambas falam do divino; uma não poderia ser mais diferente da outra.

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After the Dance (1876) também de Waterhouse; a mitologia e o exótico eram temas recorrentes da escola

UM MILAGRE 

Publicado originalmente em Selections from the Writings of Lord Dunsany

Existe em Roma uma estrada que atravessa um templo antigo em que outrora os deuses foram amados; ela se estende ao longo do cume de uma grande muralha e o chão do templo, em mármore rosa e branco, encontra-se muito abaixo dela.

Por sobre o chão do templo contei treze gatos famintos.

“Às vezes”, os ouvi sussurrar, “Foram deuses que viveram aqui, outras vezes homens, e agora gatos. Então vamos aproveitar o sol sobre o mármore quente antes que outro povo venha”.

Eu estava, pois, naquela hora de uma tarde quente em que minha fantasia é capaz de ouvir vozes silenciosas. E a magreza terrível de todos os treze gatos me impeliu a entrar em uma peixaria nas cercanias e lá comprar certa quantidade de peixes. Depois retornei e os arremessei sobre o parapeito no topo da grande muralha e eles caíram por trinta pés e atingiram o mármore sagrado com um tapa

Ora, em qualquer outra cidade que não Roma, ou na mente de quaisquer outros gatos, a visão de peixes caindo do céu teria certamente provocado assombro.  Levantaram-se lentamente, e se alongaram; então se dirigiram preguiçosamente em direção aos peixes. “É só um milagre”, diziam em seus corações.

 Tradução de Ana Calazans

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Oferenda ao Deus Pã, magnífica obra do pintor teuto-brasileiro Pedro Weingärtner datada de 1894

O TÚMULO DE PÃ

Publicado originalmente em Fifty-One Tales

“Vejam”, disseram eles, “o antigo Pã está morto, vamos agora fazer um túmulo e um monumento para que seu terrível culto ancestral possa ser lembrado e rejeitado por todos.[1]”.

Assim falaram os povos das terras esclarecidas. E eles construíram um poderoso túmulo de mármore branco. Lentamente, ele levantou-se sob as mãos dos construtores e brilhava a cada noite após o poente com os raios do sol moribundo.

Muitos choraram por Pã enquanto os construtores erguiam a tumba; muitos os injuriavam. Alguns clamaram que cessassem a obra e chorassem por Pã e outros para que eles não legassem a um deus [da natureza] tão infame memorial. Mas os construtores seguiram com a obra.

E um dia tudo acabou e o túmulo lá estava como um íngreme penhasco sobre o mar. E nele Pã foi esculpido com a cabeça humilhada sob o peso dos pés dos anjos em seu pescoço. E quando a tumba foi concluída o sol já havia se deitado, mas o brilho do entardecer permaneceu róseo no imenso tronco de Pã.

E hoje todas as pessoas esclarecidas vieram e viram o túmulo e lembraram Pã, que foi morto, e lastimaram-no e também à sua época ímpia. Alguns, porém, choraram afastados sua morte.

Mas à noite quando saiu furtivamente da floresta, e deslizou suavemente como uma sombra ao longo das colinas, Pã viu o túmulo e riu.

Tradução de Ana Calazans


[1] O autor faz referência ao célebre trecho da obra De Defecto Oraculorum (A Obsolescência dos Oráculos) do historiador Plutarco, no qual um viajante diz ter ouvido um grito “O Grande Pã está morto”, “Pan ho megas tethneken” em grego. A expressão é uma espécie de símbolo e síntese da mudança cultural e do inconsciente latino na época do fim do paganismo. Séculos depois Nietzsche a atualizaria na célebre frase “Deus está morto”.

 

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