Literatura
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Os Desencantados

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Scott Fitzgerald no auge de seu prestigio; aos 23 já era um escritor consagrado

“[…] aprenda comigo, garoto, na América nada fracassa como o sucesso.”

 No final dos anos 30, o jovem aspirante Budd Schulberg embarca na fantasia de trabalhar ao lado de seu ídolo, F. Scott Fitzgerald, na produção do roteiro de um filme para um chefão de Hollywood. A comovente e profundamente humana descida ao inferno de quem outrora fora um príncipe da Era do Jazz é acompanhada por um solidário aprendiz/anjo da guarda que se recusa a acreditar que seu sonho virou um pesadelo. A história é narrada com toda grandeza no livro Os Desencantados.

Não recordo a idade, só que foi em algum período entre os nove e os 12 anos, mas  lembro que minha queda pela literatura americana do entre guerras começou com a leitura de O Sol Também se Levanta de Hemingway.  O “espírito do tempo”, no entanto, só caiu sobre mim depois de ler Este Lado do Paraíso e, logo depois, Suave é a Noite, para mim o melhor livro de F. Scott Fitzgerald e o que consolidou uma de minhas muitas fixações literárias.

Assim, entre o fim da infância e o início da idade adulta, fiz minha graduação na “geração perdida[1]” e li tudo do Scott editado no Brasil e também boa parte da obra de Hemingway, mais o Babbitt de Sinclair Lewis, Winnesburg Ohio do Sherwood Anderson, 1919 de Dos Passos,  três volumes de ensaios de Edmund Wilson (11 Ensaios, Os Anos 20 e O Castelo de Axel), contos da Dorothy Parker… Na esteira li também T. S. Elliot, um dos raros poetas que aprecio porque o leio como prosa. Anos depois comprei O Bom Soldado de Ford Madox Ford, editado pela Editora 34, livro impressionante do escritor que foi ridicularizado por Hemingway em Paris é uma Festa.

(A literatura de língua inglesa, particularmente a norte-americana, é minha preferida até hoje e esse gosto, conformado à minha idiossincrasia literária que se inclina a releituras e é reticente à inclusão de novidades, se detém sobre escritores muito particulares, mas que têm pouco em comum como Graham Greene, Joseph Conrad, Paul Bowles, Walter Scott, Thomas Hardy, Malcolm Lowry, Isaac Bashevis Singer, Rudyard Kipling, Truman Capote, Thomas Pynchon e os magníficos da ficção científica Arthur Clarke, Philip K. Dick, Isaac Asimov, Robert Heinlein, Orson Scott Card e Willian Gibson.)

Toda essa declaração de gosto aí em cima é para falar sobre Os Desencantados do Budd Schulberg, um livro que bem poderia ser visto como o obituário de uma geração. Editado no Brasil em 2006 pela Cosac Naify, o livro me atraiu por ser um relato romanceado da parceria tragicômica entre o autor e Fitzgerald, mas logo nas primeiras páginas me fisgou pela qualidade da prosa e pelo caráter quase sobrenatural da humanidade e profundidade psicológica dos personagens: Manley Halliday, a encarnação em papel de Fitzgerald, é uma das figuras mais impressionantes e trágicas que encontrei na literatura.

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O jovem roteirista Budd Schulberg em foto da década de 40

Copey costumava definir assim a tragédia grega”, Manley Halliday disse delicadamente. “Dizia que todos devemos pagar por nossos pecados nesta terra e que os deuses determinam o tipo e a quantidade do pagamento, mas que, quando um homem é punido além do limite determinado pelos deuses, é a tragédia grega”.

Em 1939, minado pelo alcoolismo e pela infelicidade, Fitzgerald amargava dois anos de calvário em Hollywood mendigando por chances como roteirista quando foi chamado para escrever o roteiro de uma comédia ligeira, Winter Carnival, ao lado de um jovem Schulberg. O livro escrito dez anos depois pelo roteirista – que ganharia em 1954 o Oscar por Sindicato de Ladrões de Elia Kazan – narra o que para ele foi um sonho que virou pesadelo e para Scott o último e mais tenebroso trecho de sua descida ao inferno.

Com 43 anos, Fitzgerald-Halliday é um zumbi que deixou não apenas a fama, mas sua alma e seu coração nos anos 20 e que arrasta seu corpo endividado, amarrotado e encharcado de álcool em um mundo que não mais entende e nem aprecia seus códigos. Oscilando entre a autopiedade e a autocomplacência ele, no entanto, enfrenta as humilhações e o sofrimento com uma dignidade que tem uma dimensão tão profunda que flutua acima da mediocridade e da mesquinharia do mundo – em um momento do livro Shep Stearns-Budd Schulberg o compara a (ao vagabundo de) Chaplin.

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Scott e Zelda Fitzgerald logo após seu casamento no início dos Anos 20

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No livro de Schulberg, Scott torna-se Manley e Zelda a selvagem Jere Wilder

O último algoz de Manley-Fitzgerald é Victor Milgrin, encarnação do pragmatismo bruto e da mediocridade deslumbrada dos chefões da indústria do cinema – na “vida real” o produtor que contratou Budd e Scott foi Walter Wanger, então na Columbia. Um tirano com os fracos e um bajulador com os que ele considera superiores socialmente, Milgrin dispõe de Manley com uma crueldade que faz contraponto ao masoquismo do escritor, que decidiu viver sua verdadeira vida em um mundo onde sua esposa Jere Wilder-Zelda Seyre ainda é uma adorável e tresloucada melindrosa e não sua parceira de derrocada.  A “Beatriz” de Halliday, a qual ele persegue em vão, tornou-se após anos de paixão, desespero, dissipação e desperdício de tempo e talento, uma mulher de meia idade que entra e sai de sanatórios.

Assim como o carrossel dos Roaring Twenties girou rápido e voou dos trilhos com o crash de 29, a vida de Fitzgerald-Manley foi comprimida em uma década. A grandeza de Scott como escritor não se deve apenas a seu retrato agudo de um interlúdio de alegria e loucura; é a dimensão trágica de seus personagens e o fato deles serem variações de sua própria vida que o torna tão grande.  A narrativa fala da progressão inexorável rumo ao abismo de um artista que renuncia à sua arte, à sua vida real (a literatura), pela sedução do irreal; sempre adiando, sempre cedendo a mais um trago, mais uma bajulação, mais uma festa, mais uma extravagância, ao autoengano… “Um Martini antes do jantar não pode fazer ma!”

Num piscar de olhos, Nova Iorque, Paris e Côte d’Azur foram substituídos pela vulgaridade e pelo pastiche kitsch de Hollywood Boulevard. (Apavorados com a depressão e a aproximação de mais uma guerra, os homens se contentam em olhar a vida na tela e não mais em vivê-la.) Em apenas uma década, o escritor lindo, admirado e famoso, símbolo de uma época irresponsável e adorável, se torna um fantasma anacrônico em uma América embrutecida, assustada e dividida entre a lógica conservadora e capitalista da indústria e a lógica conservadora e anti-hedonista da esquerda.  Sem dinheiro, sem sucesso e sem inspiração, resta ao artista seu ativo mais importante: seu senso de sobrevivência e sua lealdade a si mesmo.

Schulberg pode ter ganho uma temporada no inferno ao invés de dinheiro e fama com o trabalho, mas fez um livro à altura da grandeza de seu ídolo.

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[1] A expressão designa o grupo de escritores e artistas que despontaram logo após a Primeira Grande Guerra (1914-1918). A “lenda” diz que o termo foi cunhado por Gertrude Stein que em uma conversa com Hemingway falou sobre a frase que ouviu de um mecânico, “Vocês são uma geração perdida”. A designação aludia às características da juventude de então, que havia abandonado os valores tradicionais e se entregado a uma vida de festas  e futilidade.

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