Literatura
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O Homem do Castelo Alto

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Ouvi falar em Philip K. Dick a primeira vez no inverno de 1986. Com amigos fui ver Blade Runner que estava sendo reprisado no Cine Ideal cerca de quatro anos após seu lançamento, quando já havia se tornado objeto de culto. (Neste dia, um paiol de fogos de artifício explodiu a três quarteirões do cinema e o que se seguiu estava mais filme japonês de Godzilla do que para noir sci-fi. Todos se salvaram.) Fui atrás do livro que originou o roteiro e não o achei – não havia internet naquela época. Só fui ler Do Androids Dream of Eletric Sheep quase dez anos depois. O primeiro livro de Dick que tive foi uma coletânea de histórias curtas que incluía Podemos Recordar por Você por um Preço Razoável, conto que deu origem ao argumento de Total Recall, no Brasil O Vingador do Futuro.

O clima nos livros de Dick é sempre sombrio e sua narrativa introspectiva e cerebral. Para mim ele não é um autor “imagético”, como Arthur Clarke, Orson Scott Card ou Willian Gibson por exemplo. Por isso a leitura não fisga pelo caminho mais fácil. É preciso lê-lo de forma hermenêutica: primeiro extrair passo a passo o sentido literal (que embora “literal” está muitas vezes oculto), depois ir analítica ou intuitivamente, você escolhe, descascando as outras camadas… E elas são muitas. Dick não é o autor de ficção científica que nas últimas décadas teve mais obras adaptadas para o cinema, não é o weirdo cuja imagem se confunde com a de Timothy Leary; ele é um grande artesão da prosa – constatação que muitas vezes fica obscurecida pela potência de seus argumentos e por sua imagem pública – e é também uma das mentes mais complexas e misteriosas do século XX. Minha história preferida dele, até agora, é O Homem do Castelo Alto, que reli há pouco.

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No livro, os EUA perdem a II Grande Guerra e é controlado por alemães e japoneses

Não vou contar a história, só o argumento de maneira resumida. O livro se passa em uma realidade alternativa onde a Alemanha e o Japão – as potências do Eixo – ganharam a II Grande Guerra. Hitler está recluso e louco de sífilis; o Partido Nacional Socialista comanda o mundo enquanto se auto-devora em lutas internas de suas lideranças, Goering, Goebbells, Heydrich etc.. O Japão, munido de um código de conduta um pouco menos demente que o germânico, administra regiões como os Estados Americanos do Pacífico (os EUA foram divididos).

A narrativa acompanha a vida de personagens tais como um artesão judeu disfarçado, sua ex-mulher, uma professora de judô que vive na região “neutra” das Rochosas, um agente do serviço secreto da Marinha Alemã que age para impedir um plano particularmente sinistro dos Nazi, um antiquário dividido entre a subserviência e o rancor aos japoneses e um cônsul nipônico zen budista, o Sr. Tagomi,  que tenta desesperadamente ler  os desígnios do “tao” depois que perde o controle de sua realidade – meu personagem preferido.  O livro O Gafanhoto Torna-se Pesado,  escrito pelo “homem do castelo alto”, Hawthorne Abendsen, descreve com riqueza de detalhes e informações sócio-econômicas um mundo em que os Aliados venceram a guerra e afeta a percepção de alguns.  (O sobrenome Abendsen me parece uma junção da palavra alemã abend, noite, que associada ao sufixo land, terra, é utilizada para se referir ao Ocidente, e o sufixo sen, utilizado por judeus eslavos e que significa ‘filho de’; Hawthorne Filho do Ocidente é um nome que se encaixa a perfeição no ponto de vista do escritor do Gafanhoto).

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Mapa alternativo: regiões dominadas pelos alemães, vermelho, e pelos japoneses,verde

Lançado no início dos anos 60, no auge da guerra fria, uma das faces mais interessantes do livro é o fato dele ser um comentário profundamente irônico, sofisticado e com um raro senso de história  do cenário politico e econômico “real”. Essa argúcia aparece por exemplo no “holocausto” do continente africano, que no livro é levado a cabo pelos nazistas  Rosemberg e Seyss-Inquart, que só difere do que esteve em curso desde a guerra em nosso mundo pelo caráter sistemático e não-camuflado; nas politicas de reconstrução e ajuda do Eixo as regiões mais atingidas pelo conflito,  que não diferem do Plano Marshall e, principalmente, em um genial trecho do ‘Gafanhoto’ sobre o futuro econômico da China e sua ocidentalização, que soa como um exercício premonitório.

Dick não se dobrava a ideologias e seu alvo está infinitamente mais além dos jogos políticos, sejam eles comunistas, fascistas ou capitalistas, que apenas mascaram em suas particularidades e inclinações uma fixação desumanizadora. Ele mira na essência do universo e nas profundezas do homem, com imenso amor por ambos. Um trecho em que o personagem Baynes reflete sobre a psicologia dos nazistas é exemplar:

 

A visão deles é cósmica. Não um homem aqui, uma criança ali, mas uma abstração: raça, terra. Volk. Land. Blut. Ehre. Não homens honrados, mas Ehre propriamente dita, honra, o abstrato é real, o real é invisível para eles. Die Gute, mas não homens bons, não este homem bom. É o sentido de espaço e tempo que eles possuem. Eles enxergam além do aqui, do agora, no vasto, negro e profundo além, o imutável. E isso é fatal à vida. Porque um dia não haverá mais vida; houve um dia e que o espaço era só partículas de poeira, gases quentes de hidrogênio, mais nada, e assim será outra vez. Isto é um intervalo, ein Augenblick. O processo cósmico está se acelerando, fazendo a vida retroceder ao granito e ao metano; a roda gira para toda a vida. Tudo é temporário. E eles – esses loucos – obedecem ao granito, ao pó, ao apelo do inanimado; querem auxiliar a Natur. (O Homem do Castelo Alto, pág. 53)

 

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Dick por Robert Crumb no livro  The Religious Experience of Philip K. Dick

Mas o que conta é a forma como o escritor desenvolve sua concepção absurdamente fluida da realidade através dos solilóquios dos personagens; uma experiência subjetiva  que, como a nossa própria, nunca pode ser agarrada e objetivada para servir de testemunho do real.  Órfãos em um mundo que não compreendem, eles apelam ao I Ching como um guia que, amargamente, os torna ainda mais solitários e cegos: não está ao alcance do homem entender e muito menos controlar a realidade. Na visão de Dick, a vida é tecida por algo que tem e sempre terá seus desígnios e motivações refratários à humanidade; a nós só é permitido – depois de muito esforço da mente ou da sensibilidade – algumas pistas, um vislumbre que, mesmo assim, mais confunde que ilumina.

Dick teve, enfim, seu “Caminho de Damasco” no início dos anos 70. Em sua visão mística ele foi atingido por uma luz cor de rosa de um matiz “inexistente” que o retirou da “matriz espaço-tempo” e o fez perceber que o mundo a seu redor “era de papelão, era falso”. Para levantar o véu de Maya (ou da matriz) deve-se estar atento para a mensagem do “tao” que pode se esconder em qualquer um e em qualquer coisa.

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O Homem do Castelo Alto. São Paulo, Aleph, 2006.

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