Cultura
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Mayol, Filho de Netuno

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Foto de kozyndan da instalação Silent Evolution de J. Taylor, Museu Subaquático de Cancun

Meu pai era pescador e mergulhador. Nós nunca tivemos muito contato, mas por três vezes, entre meus oito e 13 anos, passei minhas férias de verão com ele. A primeira e última coisa prática que me ensinou foi mergulhar – de apneia e de compressor: a atitude, como descomprimir, os riscos, os tipos de seres do mar, como fazer “marcas” de mergulho etc. Também me deu um único livro, Expedição Moana, sobre um grupo de mergulhadores aventureiros que cruzam os oceanos fazendo pesca submarina; e uma mini espingarda cobra-sub.

Durante dez anos, entre os oito e os 18, o mergulho foi um companheiro, assim como a leitura, que me salvou de inúmeros monstros. Nunca consegui caçar, em parte por falta de habilidade com a cobra-sub, em parte por achar um ato mau e gratuito – só arpoei um único peixe, um paru grandinho, e fisguei um único polvo com meu gancho improvisado com um garrote. Saía após a escola, quando a maré estava baixa, e só retornava ao final da tarde; sempre sozinha. O prazer autossuficiente e o poder de mergulhar num mundo onde os sentidos experimentam de forma diferente o som, a luz e o tato nunca puderam ser igualados, nem mesmo por velejar (esporte que eu e boa parte dos adolescentes remediados da cidade onde passei a juventude, Maceió, praticávamos; invariavelmente em lasers e optimists emprestados), nem pelo ioga e o kung fu.

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O mito do mergulho submerso em posição de lótus

No final dos anos 80 vi Imensidão Azul do Luc Besson. O filme conta a história de Jacques Mayol (interpretado por Jean-Marc Barr) mito do mergulho livre que se tornou automaticamente meu ídolo por razões diversas. Filho de pais franceses, mas nascido em Xangai na China, ele começou a mergulhar ainda menino na costa japonesa onde passava férias com a família. Em 1966, perto dos 40 anos, bateu o recorde do mergulho em apneia alcançando os 60 metros; em 1976 foi o primeiro humano a chegar aos 100 metros e em 1985, aos 58 anos, chegou aos 105.

O homem retratado por Besson no filme, do qual Mayol foi consultor-roteirista, é quase um autista e os registros e depoimentos dão conta de que Mayol era profundamente reservado, solitário, autocentrado, irascível e avesso a vínculos. Não é de estranhar que o filme tenha como guia sua amizade-rivalidade com Enzo Maiorca (vivido no cinema por Jean Reno), mergulhador italiano cuja personalidade parece ser oposta a dele. Mayol foi voluntário em diversas pesquisas médicas e os cientistas descobriram que enquanto mergulhava seu ritmo cardíaco baixava de 70 para 20 pulsações por minuto. Para resgatar o que acreditava ser uma capacidade perdida do homem, sua habilidade de permanecer confortavelmente submerso, ele se aprofundou na observação dos golfinhos e em técnicas de pranayama (respiração) iogue e praticas budistas como o zazen.

“Para prender a respiração de forma eficaz, mesmo que pareça paradoxal, você precisa fazê-lo sem pensar; você precisa tornar-se o próprio ato de respirar”

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Mayol prestes a receber a pancada do kyosaku no zazen em cena de Jacques Le Dauphin

Mayol teve sua “iluminação” – relatada em sua biografia, Homo Delphinus. Em 19 de outubro de 1983 depois de fazer seus pranayamas iniciou uma descida rápida; por volta dos 80 metros, na escuridão, experimentou “uma sensação de metamorfose em animal marinho, um vago atordoamento, como se faculdades latentes desconhecidas tivessem despertado em mim”. Prosseguiu descendo sem medo até chegar aos 105 metros e retornar a superfície três minutos e 15 segundos depois.

Ele se suicidou aos 74 anos em sua Villa, Glaucos, na Ilha de Elba em 22 de dezembro de 2001. Segundo Ovídio, Glaucos era um pescador que descobriu uma erva que trazia os peixes de volta à vida; por seu feito foi transformado em deus marinho pelos titãs Oceano e Tétis e ganhou a imortalidade. Seus cabelos se tornaram algas e em lugar das pernas cresceu-lhe um rabo de peixe. Logo após ser transformado apaixonou-se pela ninfa Cila que o rejeitou devido a sua aparência agora assustadora: assim como Mayol, ao dominar o mar não mais achou seu lugar na terra.

“O mais difícil é quando você está lá embaixo: você precisa de um bom motivo para voltar à superfície”

Jacques Le Dauphin – documentário de Alain Trellu, 1990

Trailer de Imensidão Azul

Expedição Moana no Google Books

 

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