Literatura, Traduções
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Cinco Poemas de Yehuda Halevi

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Fé, amor e razão lutaram pela alma de Yehuda Halevi e a fé venceu. Um dos maiores poetas hebraicos foi tributário de sua época e localização histórica, o século XII em Al Andalus. A cultura que floresceu na Espanha moura enquanto o restante da Europa mergulhava no medievo foi obra da harmonia e convivência de três povos distintos: os cristãos, os árabes e os judeus. O que motivou o poeta no fim de sua vida a renegar a convivência harmoniosa entre os povos e entre a filosofia, a mística e as artes práticas e poéticas permanece um mistério. Ao abandonar Ha Sefarad (Espanha), sua terra de nascimento e formação, e morrer tentando chegar à terra prometida de seus ancestrais, Jerusalém, ele inverteu o sentido do exílio – conceito tão caro ao judaísmo: minha terra é onde minha alma tem morada.

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Árabe e cristão em disputa poético-musical em Al Andalus

Talvez seja comum famílias possuírem mitos genealógicos; mas minha ascendência materna alcançou o state of art em matéria de imaginação. Um dos ramos (de meus bisavôs por parte de avó, Ana Calheiros de Albuquerque e Jeremias Nobre Porciúncula), dizia descender simultaneamente da família de Dante Alighieri (Albuquerque) e de “parentes” de São Francisco de Assis (Porciúncula). O Nobre transfere a descendência da Itália para a Península Ibérica, o mesmo ocorrendo com os Calheiros, judeus sefaradim que, temerosos com os pogroms crescentes, tornaram-se marranos e embarcaram para o Novo Mundo. Boa parte da família ostenta olhos castanhos escuros ou verdes emoldurados por olheiras profundas, pele cor de oliva, narizes aquilinos, cabeleiras bastas…(Soube recentemente, final de 2014, que minha outra bisavó materna, Guiomar Tenório Cavalcanti, descendia de ciganos que se estabeleceram em Granada, vindos da Itália).

É a esta ascendência que me apego para explicar o fascínio que tenho pela Espanha desde menina. Um dos períodos que mais me interessam é justamente o domínio islâmico (quando então era chamada de Al Andalus), primeiro com o solitário descendente dos omíadas assassinados, Abdul Al Rahman, no Califado de Córdoba (séculos X e XI), depois com seus sucessores, seguidos pelos governantes das taifas (séculos XI e XII), a conquista Almorávida (século XII) e o declínio com os fundamentalistas Almoádas e os Násridas de Granada. Mais especificamente o interlúdio que se estendeu do século X ao século XII.

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Sinagoga do Transito em Toledo

Enquanto a maior parte da Europa se encontrava sombreada pela Idade Media, a península brilhava com as nuances da tolerância e do amor à sabedoria e à beleza. Sábios e artistas cristãos, judeus e mouros (os “Povos do Livro”) se viram unidos com o objetivo de recuperar o corpo de sabedoria grega arabizada e transpô-lo para a língua franca; foram traduzidos tratados de matemática, medicina, astronomia, filosofia platônica e aristotélica re-criada pelo neo-platonismo e pela leitura árabe e hebraica. Uma “renascença” em que o ideal representado por Da Vinci já estava presente em cientistas-filósofos-poetas como Avicena, Averróis, Maimônides, Ibn Gabirol, Samuel O Nagid, Moisés Ibn Ezra e Yehudah ben Samuel Há-Levi ou Yehuda (Judah) Halevi.

Halevi, um judeu andaluz do século XI, escreveu mais de 800 poemas e é tido como um dos grandes poetas do judaísmo – alguns de seus poemas foram incorporados à liturgia sefaradi do Yom Kippur. Sua obra se apropriou da gramática e da retórica árabes, que tão bem se prestavam à cadência e melodia da poesia, para limpar o pó que tornara o hebraico uma língua dura, engessada, que perdera ao longo dos séculos sua vivacidade e capacidade de expressar com beleza sentimentos de amor humano ou divino.

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Mesquita de Córdoba

Nascido no Norte cristão, considerada uma terra de brutos de mente e espírito pelos andaluzes que viviam na porção árabe península, Halevi saiu da cidade de Tudela para Toledo e de lá, a convite de Moses Ibn Ezra, para Granada, no Sul. Médico e filósofo, Halevi era produto de uma geração modelada segundo a inspiração enciclopédica da filosofia hebraica e grego islâmica.

Misteriosamente, na maturidade, renegou a cultura de convivência e influência mútua entre os Povos do Livro que permitiu o florescimento de toda uma geração de intelectuais. Em 1140, próximo aos 70 anos, decidiu partir para Jerusalém (na época em que a cidade santa estava imersa no caos com a chegada dos cruzados). Antes fez uma parada no Egito e permaneceu algum tempo em Alexandria; não há registro histórico objetivo de que ele tenha alcançado seu desejo de chegar à Palestina. A viagem, temerária para qualquer homem jovem e com saúde, foi o ato final e radical de sua rejeição à miscigenação cultural e também a coroação de um projeto que almejava purificar a cultura e a fé judaicas.

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Catedral de Valência

Embora profundamente influenciado pela poesia árabe reagiu contra seu estilo por acreditar que ele corrompia a pureza da língua hebraica. Seus poemas tardios são em sua maioria hinos de louvor a Jerusalém e ao retorno do exílio. Rejeitou também com veemência a relação entre a filosofia e a religião, entre a fé e a razão, pilares do florescimento da “renascença” de Al Andalus. Nesse sentido seu grande testamento é o Livro dos Khazares ou o Livro da Refutação e da Prova: Sobre a Fé Humilhada – ou Sefer Há-Kuzari em sua tradução hebraica.

Abaixo cinco poemas que traduzi, segundo meu gosto. É sempre bom chamar a atenção para o fato de meu inglês e francês (línguas das quais transpus os poemas) serem mancos e para minha tendência a recriação nas traduções. Os dois primeiros são versos de amizade, o segundo de sedução e os dois últimos de louvor. Todos, portanto, poemas de amor.

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Sinagoga Branca de Toledo

 

 I.

Sem título

Pelo vento

No frescor da noite

Envio saudações a um amigo

Peço-lhe apenas para lembrar o dia

De nossa separação

Quando fizemos um juramento de amor

Por uma macieira

II.

Sobre a Partida de Moses ibn Ezra

Desde sua partida, amigo, eu busco em vão a paz;

Em sua despedida, meu coração se juntou ao seu para compartilhar suas andanças.

Se este amor não tivesse a esperança do dia de seu retorno

O dia da despedida teria sido para mim o dia de minha morte.

Oh luz do Ocidente retorna ao teu Ocidente.

Seja novamente um selo em cada coração, um sinete sobre cada braço!

Veja, as montanhas que nos separam vão ser testemunhas

De que minhas lágrimas sobre elas serão maiores que as chuvas do céu.

Oh Voz Brilhante, como poderá viver em meio aos brutos!

Como o orvalho do [Monte] Hermon poderá cair sobre o amaldiçoado [Monte] Gilboa!

III.

O Espelho

Ele fitou com amor meu olhar

Meus braços entrelaçados em seu pescoço

E no espelho dos meus olhos

Qual imagem, todavia, ele encontrou?

Sobre meus olhos escuros

Ele apertou seus lábios com um suspiro raro de paixão

O ladino! Não foram os meus olhos que beijou

Foi sua imagem refletida

IV.

Visão em um Sonho

Meus prados estão banhados pela luz das estrelas.

Será que agora minha colheita perdida retornará renovada?

Tenho um delicioso prado e um vinhedo,

O tambor está comigo e é minha a boca na flauta.

O bracelete retorna a meu braço,

E o anel de ouro a meu nariz.

E seu palácio e minha morada

Defrontam-se face a face.

Então eu regressei para a sua unificação,

Coração e sentidos reunidos.

Possa isto intoxicar a alma,

Possa a língua anunciar alegremente esta união.

V.

Contigo

Eu estava contigo, antes da vida terrena ser gerada –

Possa eu agora abrigar seu espírito e fortalecê-lo.

Se eu tivesse forças para me manter de pé, como me perturbaria?

E poder para caminhar, como poderia impedi-lo?

E meus pensamentos – permanecem os Seus pensamentos.

O que eu inicio – como poderia fazê-lo sem Você.

É a Vós que busco no momento da graça – escuta-me;

Fortaleça-me com o escudo da Tua graça.

Convoque-me para ser o guardião de seus portões,

E despertai-me para a honra de Teu nome.

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1 A profundidade dos poemas místicos de Halevi fez com que fossem traduzidos e comentados no século XX pelo filósofo Franz Rosensweig, autor de Estrela da Redenção.

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