Arte, Literatura
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Gustave Doré: Gravura como Literatura

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Este rapaz emburrado foi minha primeira e, talvez, definitiva influência estética em uma arte pela qual tenho um imenso apreço: a gravura. Gustave Doré  (1832-1883) se confunde com dois livros que foram por mim muito mais “lidos” através de suas imagens do que de suas palavras. O fato de eu ser uma pessoa infinitamente mais afeita à palavra do que à imagem e dos dois textos em questão serem  obras canônicas (Dom Quixote e a Divina Comédia) diz muito de como minha memória afetiva é apegada a ele

 Doré, um  garçon francês que se foi jovem e pobre deste mundo era também pintor e escultor e ilustrou obras tão distintas quanto Gargântua e Pantagruel de Rabelais e a Bíblia Sagrada, além de poemas de Tennyson, Byron, Poe, Coleridge e Milton e contos de fadas de Perrault. Tendo sido motivadas por necessidade ou por gosto, a questão é que suas escolhas parecem ter  uma unidade oculta: fico satisfeita em pensar que ele as fez por seu potencial simbólico; uma riqueza presente tanto na fantasia cavalheiresca de Orlando Furioso como na espada de São Miguel Arcanjo no Paraíso Perdido, na projeção mariana da anima de Dante em sua Beatriz como na Senhora do Lago arturiana, tanto na solidão luciferiana como na mistura de fragilidade e força inexpugnável da loucura de Quixote.

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Quixote cercado de suas obsessões inspiradas pelo abuso de substâncias não recomendadas pela Carta Magna D’Espanha, como o Amadis de Gaula

A primeira imagem de Doré de que me lembro é uma de DomQuixote cercado por suas visões. Embora eu devesse ter entre seis e sete anos, não me assustei. Apesar da enorme cabeça e do rabo de algo que me pareceu uma cobra (tenho pavor a cobra) eu intuitivamente sabia que eram projeções da imaginação e não seres “reais”.

(Eu, que tive o meu primeiro sonho-pesadelo recordado quando ainda dormia no berço azul de madeira no quarto de minha babá: os dois malfeitores de Pinóquio, uma história que sempre me causou mal-estar, a raposa João Honesto e o gato Gideão, andando inexorável e ameaçadoramente na minha direção e prestes a atravessar as grades do berço – até hoje acho que foi o sonho mais real que tive e sei, pelo fato de ter ocorrido na casa da Rua Zamenhoff, que eu tinha, então,menos de três anos.)

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Os moinhos de vento – que se tornaram uma bela metáfora que perdura até hoje – sempre me pareceram ameaçadores por conta desta lâmina do Quixote

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O Gustave Doré para mim foi um expressionista avant la lettre

Meu avô paterno João Calazans tinha uma edição ilustrada do Quixote, mas eu me assustava com a grossura do livro e só queria ver as figurinhas. Só fui ler a história do fidalgo muitos anos depois de folhear As Novelas Exemplares,quando comprei na adolescência a edição verde escura de capa dura da Abril nas bancas que, desafortunadamente, não tinha gravuras.

Da mesma coleção, aliás, comprei a Divina Comédia e então  pude conhecer as imagens do Inferno, do Purgatório e do Paraíso. (Vou confessar: achei os dois últimos estágios muito chatos e acabei ate hoje só apreciando o Inferno mesmo; as ilustrações do Paraíso são lindas  e aquela da águia do Purgatório também, mas nem chegam perto da riqueza mítica da morada de Satanás).

Quem quiser dar uma olhada no Inferno pode entrar aqui no Projeto Gutenberg.

Canto I do Inferno: No meio do caminho de minha vida me vi perdido em uma selva escura (a tradução brasileira é diferente, mas gosto assim – foi como fixei)

Logo no começo do livro me deparo com a imagem de Dante assustado  prestes a entrar em um “túnel” de uma floresta beeem freudiana (e aqui lá vem outro sonho importante que tive na adolescência no qual caminhava horas em um túnel de um bosque formado só por ciprestes verdes e roxos. )

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A romântica e trágica história de Paolo e Francesca inspirou pintores e escultores

E depois vem a imagem linda de Paolo Malatesta e Francesca de Rimini enlaçados. A lâmina de Doré sempre me intrigou. Por que raios no Inferno (tudo bem que alguns círculos não sejam tao assustadores assim) alguém se depararia com um casal de amantes adúlteros juntos, apertadinhos? Bom, acho que Doré, assim como eu, deve ter lido O Morro dos Ventos Uivantes e se recusava a pensar na ideia de amantes separados após a morte e – diferentemente de mim – era um romântico, por isso desenhou Paola e Francesco abraçadinhos quando na verdade eles deveriam estar rodando em um redemoinho de vento impossibilitados de se tocarem; eternamente cheios de esperança que em um dos volteios suas mãos pudessem, mesmo que por um segundo, roçarem.

(Dada a  época, a ascendência do casal e de seu algoz e o aparente moralismo assexuado de Dante,  o poeta até que foi bonzinho com os dois, provavelmente por seu senso de justiça elevado – Paolo e Francesca foram mortos pelo marido dela e irmão dele, Giovani Malatesta).

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O esplendor da rosa branca angélica do Canto XXXI do Paraíso

A terceira obra ilustrada por ele da qual tive conhecimento foi Orlando Furioso de Ludovico Ariosto.  Por conta do Quixote eu já havia ouvido falar e pesquisado (naquela época era em enciclopédia mesmo) sobre o livro, a literatura de cavalaria, a  Chanson du Rolland, Amadis de Gaula, langue d’oc, langue d’oil etc.  etc., e foi numa enciclopédia que vi a imagem de Andrômeda sendo salva por Perseu creditada como uma das gravuras de Doré para o Orlando. Achei aquilo muito esquisito e continuei achando isso nos últimos 30 anos (embora tenha me esquecido do assunto porque tinha filho, escola, contas, chefes e maridos para administrar),  pois nunca li o livro.

Até que escrevendo este artigo descubro (agora já no Google) que ela ilustra o resgate da donzela Angélica pelo cavaleiro Ruggiero, personagens do livro de Ariosto. Me parece que Doré era fixado no mito de Andrômeda – mas quem pode culpá-lo por ficar obsediado por uma moça completamente nua, presa por correntes a um rochedo e prestes a ser devorada por um monstro marinho que parece uma serpente?

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Doré tinha fixação no mito de Andrômeda, pois desenhou e pintou séries delas

Muitos anos depois, durante uma crise de melancolia dramática provocada pelo fim (bem mexicano)  de um romance em 2001, que coincidiu com um período no qual tive que viajar a Porto Alegre a trabalho, comprei As Núpcias do Céu e do Inferno, de Willian Blake, e por conta dele me interessei em ler O Paraíso Perdido, de Milton. E eis que descubro que Doré também ilustrou a obra (a de Milton; a de Blake ele mesmo ilustrou, o danado!) . As gravuras de Paraíso Perdido são, no conjunto, as que mais gosto de Doré.

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Lúcifer solitário: arquétipo do ser que arca sozinho com o ônus de suas decisões

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São Miguel Arcanjo cumprindo seu papel e derrubando os amotinados

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O Paraíso de Doré é uma selva tropical luxuriante, mas muito solitária

 

 

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A Queda: Adão e Eva ousam provar o conhecimento e são amaldiçoados

Mas existem outras gravuras que  gosto de forma especial também como estas abaixo; cada uma tem sua graça e seu motivo.

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Daniel na cova dos leões, história que me causa assombro desde pequenininha

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Os Idílios do Rei, poema de Tenysson, mostra Merlin e Viviane, Senhora do Lago

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