Filosofia
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Comentário sobre a crítica de Simon J. Evine a Donald Davidson

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O presente texto é um comentário sobre alguns conceitos tratados na seção II do artigo A caminho da linguagem, de Simon J. Evine, e no artigo Sobre a própria idéia de um esquema conceitual, de Donald Davidson. Trata, em especial, da crítica a Davidson elaborada por Thomas Nagel em The View from Nowhere a partir de sua distinção entre “realismo” e “idealismo”, citada por Evine, e da discussão dos conceitos de indeterminação e traduzibilidade. O tema central do artigo de Evine é uma análise acerca de como Davidson descreveria o processo de aquisição da linguagem e sua problematização contraposta à abordagem holística – um dos pilares da teoria da linguagem davidsoniana. A seção II, como o próprio autor destaca, não questiona o holismo, mas indica pontos cegos na sua articulação com a crítica de Nagel. O artigo de Davidson é um dos textos em que melhor transparecem a defesa das bases fundadoras de sua filosofia.

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Simon J. Evine introduz a crítica de Thomas Nagel a Donald Davidson citando a concepção do último a respeito do caráter indeterminado da linguagem das crianças e sua relação com os graus de indeterminação das crenças, significados e outros conceitos intencionais. Partindo da idéia de que (citando Davidson) “Há um significado relativo a um sistema de transformações de modos de atribuir proposições promíscuo (é assim que uma criança significa algo) e um significado relativo a sistemas de transformações mais restritivos”[1], Evine sustenta que a adoção desta linha de raciocínio coloca Davidson em dificuldades.

O autor utiliza a distinção de Nagel entre as perspectivas do “realismo” e a do “idealismo”, sendo o “realismo” o aspecto segundo o qual “nossa compreensão do mundo é limitada não só a respeito daquilo que podemos saber, mas também em relação àquilo que podemos conceber” e o “idealismo” a perspectiva fundada na idéia de que “o que há é aquilo acerca do qual podemos pensar ou que podemos conceber” [2].

Nagel descreve Davidson como “idealista” por conta de sua afirmação de que a traduzibilidade e um critério de linguisticidade, junto com a idéia de que seja o que for que exista pode ser concebido por uma criatura racional. Em sua crítica, Nagel sustenta a concepção de que pode haver uma assimetria na traduzibilidade. Assim, uma linguagem pode ser traduzível (inclusiva) relativamente à outra, mas o contrário não seria possível (não-inclusividade). Segundo Evine, neste caso, “os falantes da linguagem não-inclusiva não teriam acesso cognitivo a todas as coisas acerca das quais os falantes da linguagem inclusiva poderiam pensar e falar” [3].

Para o autor, a análise de Nagel cria uma fissura no escopo “idealista” de Davidson. “A possibilidade de haver linguagens relacionadas deste modo mostraria que a afirmação idealista de que aquilo que existe e aquilo que podemos pensar são coextensivos nunca poderia ser mais do que acidentalmente verdadeira” [4].

Evine desenvolve o caminho aberto por Nagel com base na idéia de que, para advogar a favor do “realismo”, pode-se estabelecer a existência de uma linguagem em relação a qual a linguagem dos adultos fosse não-inclusiva, para tanto lança mão do conceito de “superadultos”. Margeando um virtual argumento de Nagel, Evine sugere que, se as crianças vão aprimorando seus esquemas lingüísticos e conceituais até se tornarem adultas, nada impede que se suponha a existência de adultos com capacidades além das consideradas normais, que disporiam de um repertório tal que fosse apenas parcialmente traduzível para nós – assim como o nosso é apenas parcialmente traduzível para as crianças – ou mesmo que as capacidades funcionais (cognitivas e fisiológicas) dos adultos comuns não fosse capaz de traduzir.

Evine problematiza a questão imaginando uma resposta plausível de Davidson a este argumento: a tese de que, no momento em que alguém trava conhecimento com o significado de uma palavra ou conceito desconhecido, eles passam a ser traduzíveis. Para o autor essa “intraduzibilidade benigna” não ameaça o “idealismo” davidsoniano porque pode ser superada “pelo alargamento dos recursos da linguagem não-inclusiva ou das capacidades conceituais do falante da linguagem” [5]. O mesmo não ocorre com o que ele chama de “intraduzibilidade maligna” que “não pode ser remediada por nenhuma quantidade de ensino” [6].

Evine sugere, no entanto, que Nagel poderia sustentar que o caso da intraduzibilidade das crianças não é do tipo benigno, pois necessita de uma espécie de “transformação constitucional”, ou seja, de um aprimoramento das ferramentas neurofisiológicas ocasionado pelo processo de amadurecimento. Com base nesta idéia, o autor supõe uma “distinção paralela” entre as intraduzibilidades maligna e benigna: o processo de assimilação da linguagem necessitaria forçosamente na primeira de um aperfeiçoamento do organismo, enquanto na do segundo tipo seria solicitada – apenas – uma expansão do repertório conceitual.

Para Evine, o problema da posição de Davidson ao sustentar que existem diferentes graus de indeterminação (ou formas de atribuir proposições mais ou menos promíscuas) é a da opção entre a conclusão derivada de que a forma dos adultos interpretarem está submetida a um grau mínimo de indeterminação ou a tese dos “superadultos”, que corrobora a visão “realista”. A argumentação de Evine submete então a proposta de Davidson à armadilha lógica do terceiro excluído: recusar a visão “realista” significa que Davidson terá que admitir que os humanos adultos exibem o “limite da determinação” [7] – não poderá existir nenhuma criatura sujeita a menos indeterminação.

Em seu texto Sobre a própria idéia de um esquema conceitual, Davidson argumenta contra a “doutrina” do “relativismo conceitual” chamando a atenção para o paradoxo embutido no conceito. Para ele, o simples fato de existir um meio (linguagem) capaz de exprimir (traduzir) pontos de vista, ou visões de mundo, diferentes faz cair por terra a idéia de uma “incomparabilidade drástica” (intraduzibilidade radical). A tese de Davidson parte de algumas premissas como a identificação de esquemas conceituais com linguagens, a relação entre linguagem e “alma” (expressão que ele utiliza em lugar de mente ou pensamento) e a relação entre linguagem e uma teoria da verdade compartilhada, e de uma conclusão antecipada: a de que a possibilidade de uma falha completa na traduzibilidade não faz sentido.

No desfecho do artigo, a partir da negação do dogma dualista esquema versus mundo, Davidson nega também a idéia de relatividade conceitual – “a verdade relativa a um esquema” [8]. Ele sustenta que, ao renunciar a esta concepção, não renunciamos à noção de verdade, que permanece relativa à linguagem, e nem ao mundo. “Ao abandonar a dependência em relação a um conceito de realidade não-interpretada, alguma coisa fora de todos os esquemas e da ciência, nós não renunciamos à noção de verdade objetiva… Ao abandonar o dualismo do esquema e mundo, nós não abandonamos o mundo, mas restabelecemos o contato imediato com os objetos familiares cujas graças fazem nossas sentenças verdadeiras ou falsas” [9].

Pode-se inferir que a conclusão de Davidson no texto corrobora a idéia, não discutida explicitamente por ele, de que o homem exibe o limite da determinação. Seria lícito supor que sua opção em não problematizar os limites da indeterminação e da traduzibilidade relativos a um mundo que é “realidade não-interpretada” e “alguma coisa fora de todos os esquemas e da ciência” avaliza a tese de Evine, que rejeita a concepção extensional sobre realidade e conceito/linguagem ao negar a afirmação de que aquilo que existe e aquilo que podemos pensar são necessariamente coextensivos.

Em Davidson, a realidade, assim, permanece relativa a um ‘esquema’, o esquema do homem comum capaz de alargar seus horizontes conceituais e de linguagem para traduzir visões de mundo diferentes, mesmo que com falhas parciais, assimetrias ontológicas e “modos promíscuos de atribuir significado”. Essa realidade – desvinculada do conceito de verdade metafísica e relacionada aos padrões impostos pelos princípios da caridade e da concordância – permanece temporal, restrita às fronteiras não apenas de nossa herança conceitual, mas de nossa hodierna conformação biológica. Um ponto de vista que atesta a descrição de Davidson como um idealista por Nagel.

A metáfora dos “superadultos” cunhada por Evine possui uma ‘qualidade’ adicional como crítica à visão davidsoniana. No sistema de Davidson, o alto grau de promiscuidade e indeterminação da linguagem das crianças pode ser ‘traduzido’ por via do princípio da caridade, buscando-se a adequação dos conceitos e das crenças sob a égide da concordância (agreement). No mundo dos “superadultos” que, poderíamos arriscar dizer, povoam uma esfera que está para além “dos esquemas e da ciência” tal como conhecemos talvez essa ‘doação de sentido’ não seja suficiente para dar conta da realidade. O homem exibiria assim uma espécie de limite da determinação encapsulado, circunscrito às variações conceituais mais ou menos incomensuráveis de um mundo que se revela um feudo e não mais um universo.

Ana Calazans


[1] EVINE, Simon J. A caminho da linguagem. in Significado, Verdade, Interpretação – Davidson e a Filosofia, Plínio J. Smith e Waldomiro J. Silva Filho (orgs), Edições Loyola, p. 20.

[2] NAGEL, Thomas. The View from Nowhere. in EVINE, Simon J. op. cit.

[3] EVINE, Simon J. A caminho da linguagem. p 21

[4] Idem, ibidem.

[5] Idem, p.22

[6] Idem, ibidem.

[7] Idem, p 24

[8] DAVIDSON, Donald. Sobre a própria idéia de um esquema conceitual. http://www.cfh.ufsc.br/~braida/davidson.pdf. p. 10

[9] Idem, Ibidem.

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