Arte
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Os Bergmans

“Para mim o ser humano é uma criação indescritível, tal qual um pensamento incompreensível. E no ser humano existe tudo, do mais alto ao mais baixo, precisamente como na vida. O ser humano é a imagem de Deus e em Deus tudo existe, tudo, como se fossem forças enormes.E assim se criaram os diabos e os santos,  os profetas e os feiticeiros, os artistas e os destruidores. Tudo existe, lado a lado, penetrando-se mutuamente … Da mesma maneira deve existir também uma quantidade ilimitada de realidade. Não apenas aquela realidade que entendemos com nossos sentidos obtusos, mas sim um montão de realidades girando à volta umas das outras, por dentro e por fora. Claro que é apenas o medo e o pretensioso bom-senso que nos fazem acreditar em fronteiras. Não existem fronteiras.” Sonata de Outono, Ed. Nordica, pp. 55,56

(Eva, personagem de Liv Ulmmam explicando sua visão espiritual à sua mãe, interpretada por Ingrid Bergman).

Abaixo a cena no You Tube

Li Sonata de Outono este fim de semana. Vi o filme há muitos anos, não por ser de Ingmar Bergman, mas por ser estrelado por Ingrid. Herdei de minha avó paterna o gosto por estrelas de cinema e suas preferidas eram Garbo e Bergman. Duas suecas: uma com um olhar de iceberg e a outra com o olhar de sol. Assisti, acho, a quase todos os filmes da futura mulher de Rosselini: o delirante Spellbound (Quando fala o coração), À meia luz (Gasligth) com o Boyer, O retorno da velha senhora… Mas não vi Strombolli!

Lendo sobre elas e escutando minha avó eu não deixava de atentar também para o dernier cri da patota do desbunde da turma de minha mãe; e Ingmar Bergman era o non plus ultra da saison.  Era um tal de Persona prá lá, de Gritos e sussurros pra cá, da boca da Liv – que crescia, pulsava e parecia ter vida própria num close up…(Liv Ulmman, não Liv Tyler). Não podia ir aos filmes, que passavam no “Cinema de Arte”, mas, aos poucos, foram aparecendo uns livros editados pela Nordica que faziam uma espécie de apanhado dos roteiros e dos diálogos. Lia, mas não gostava, era tudo sombrio demais (embora estivesse acostumada com os russos é muito diferente comparar Tolstoi com um arremedo de peça teatral deprê e sem colorido).

Quando pude ver os filmes, no entanto, percebi o por que de até o Walter Hugo Khoury admirar o cara. Os filmes do Bergman são hipnóticos, mas não pelas imagens; na minha forma de vê-los eles alteram as ondas cerebrais porque seus diálogos hipnotizam. Você vê gente ali. É como se fosse literatura hologramática – não do jeito que imaginamos uma cena ao ler um livro, mas como se estivéssemos espiando por uma fresta  voyerísticamente. Revi recentemente O ovo da serpente  (de uma fase diferente da neurótica – PP do diretor,que tanto agradava a geração de minha mãe que foi irremediavelmente sequelada pelo stalinismo, o feminismo e por um freudianismo literal e sem imaginação) . O prazer de ver-ouvir é físico e é bem maior do que ver uma luta de boxe ( coisa,alias,que adoro).

A sueca Ingrid, que não teve nenhum contato carnal com Ingmar

Bergman usava os atores para encarnarem uma espécie de arquétipo invertido:  suas pessoas não são comuns, nem arquetípicas stricto sensu, mas são verdades e, por isso, tem um efeito empático tão forte.

A sueca Liv, que foi casada muitos anos com Ingmar, e sua boca mutante

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