Filosofia
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Filosofia: A Idéia de Deus em Levinas

Trecho de dissertação defendida em 10 de dezembro de 2010 para obter o grau de mestre pelo PPGF da UFBA; orientação de Wilson Gomes e Luciano Santos.
Clique aqui caso queira ver a íntegra da dissertação 
Em O nome de Deus segundo alguns textos judaicos[1] Levinas discorre sobre a inacessibilidade absoluta de Deus a partir da forma como o judaísmo trata a questão do Nome divino. O filósofo sustenta logo no início do texto que a reflexão rabínica sobre Deus nunca é separada da reflexão prática e que ela é um ato intelectual diferente da tematização filosófica do Absoluto. Esta reflexão não significa um mero “estágio” em direção à filosofia; ela é o modo “como o pensamento talmúdico tolera o contato filosófico[2]”.
Na linguagem hebraica, o nome de Deus é sempre expresso como um nome próprio nas escrituras. Os termos que designam Deus expressam relações ou atributos e não a essência d’Ele. Muitas vezes, como em Maimônides, Deus é referido simplesmente pela expressão “O Nome” (HaShem); ou, como ocorre na cabala, é expresso pela designação de uma manifestação ou uma modalidade de seu Ser. Assim, o termo Shekhinah (a última sefirath cabalística[3]) é o qualificativo da presença ou da morada divina no mundo, ou no seio de Israel – a palavra deriva do verbo “habitar” que corresponde à etimologia de imanência, em latim manere (permanecer).
É pertinente ressaltar neste ponto que, embora Levinas nunca tenha se referido de modo mais particular à cabala (talvez pelo caráter heterodoxo desta doutrina), suas formulações guardam identidade com as do misticismo cabalístico.A cabala “pensa de modo não aceito pela metafísica ocidental, já que o seu Deus é ao mesmo tempo Ein-sof e Ayin, presença total e ausência total”, ou seja, “nega a distinção humana entre presença e ausência[4]”.  A cabala é também, basicamente, uma teoria da escrita, mas de uma escrita que não se distingue da fala inspirada ou profética; ela fala “[…] de uma escrita anterior à escrita, mas também de uma fala antes da fala, uma Instrução primária que precede qualquer traço da fala[5]”.
Esta impossibilidade de conhecer o verdadeiro Nome pode ser interpretada como um corolário da impossibilidade de conhecer a verdadeira face de Deus; a radicalidade de sua transcendência e a sua paradoxal presença no mundo como “vestígio” (que tem que ser decifrado) só pode ser resolvida dialeticamente, mas persiste a interdição a sua tematização. Mas, a incapacidade de conhecer ou tematizar o que é por definição incognoscível torna-se uma possibilidade real de relação com o divino, com a transcendência, na ética.
_________________________
[1] LEVINAS. The name of God according to a few talmudic texts. In: Beyond the Verse: Talmudic Readings and Lectures. London, Athlone Press, 1994. pp. 116 -128. Tradução nossa

[2] Idem, p. 118. Tradução nossa

[3]Para mais informações sobre correntes místicas judaicas, ver SCHOLEM, Gershom. As Grandes Correntes da Mística Judaica. São Paulo, Perspectiva, Série Estudos, 197 e A Cabala e seu Simbolismo. São Paulo, Perspectiva, Série Debates, 2006

[4]BLOOM, Harold. Cabala e Crítica. Rio de Janeiro, Imago. p. 62

[5] Idem, p.63

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