Literatura
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Hugo, Maugham, Tolstoi e Minha Avó

Hugo: sentindo o peso da mão de ‘Deus’ e do Homem

Quando era criança adorava aquarela. Gostava das cores, da facilidade com que dominava o pincel – uma leve ressistência rascante, diferente do quase bloqueio do óleo, que tornava o trabalho frustrante. Gostava especialmente do fato dos traços nunca saírem como tinha planejado, pois nunca tive a habilidade de riscar o que a mente ordena. Assim, a tinta e o papel se pintavam sozinhos (e devagar) e eu tinha o prazer externo de gozar a admiração da família por algo que, sabia, não tinha mérito algum.

Hoje, lendo no recreio uma entrevista sobre um tradutor de Nietzsche, muito reconhecido e que mora em Salvador, Paulo César Souza, a aquarela, Vitor Hugo e minha avó paterna voltaram com tudo. Ele disse estar lendo Os Trabalhadores do Mar, de Hugo. Hugo gostava de pintar, não apenas em aquarela, e fez ilustrações lindas para o livro.  Li a entrevista (feita pelo jornalista Marcos Dias) depois do almoço e passei o resto do dia ruminando.

Minha avó era uma mistura improvável de uma persona social comunista, feminista e espírita com uma moralista romântica privada. Casada com um jornalista, editor de um jornal comunista (A Crítica) e amigo de gente como Portinari, José Olympio, Câmara Cascudo e Arraes, ela passou a vida desejando uma rotina burguesa e amargando uma vida infernal de esposa de um homem adorável e péssimo marido. Boêmio, ‘Vermelho’ e mulherengo, lembro com prazer de seu cardápio quando se levantava ou voltava do trabalho: salame, leite e uísque. Muito rabugento, não era um avô simpático: as estantes cobriam as paredes do kitinete em Boa Viagem e os livros serviam até para aparar portas. Ele não deixava sequer que eu tocasse neles.

Quando saia, minha avó liberava e eu podia passar o dia me divertindo: Mobby Dick ilustrado, As Viagens de Gulliver, Dom Quixote… Só há pouco tempo entendi a armadilha: é óbvio que o raciocínio era o de que queremos mais o que não podemos ter, ou só o podemos de modo furtivo. Também só entendi o caráter de minha avó muitos anos depois de sua morte, mas, ao contrário de meu avô, que tem um retrato definido, o dela só pude ver muito depois se formando devagar .

Eu a entendi pelos livros que ela me fez ler. Tinha um gosto seleto e recursivo. Se bem me lembro não ia além de Vitor Hugo, Somarset Maugham, Tolstoi, Dostoievsky, Conrad e Maupassant, e deles livros bem específicos:  Os Trabalhadores do Mar, O Fio da Navalha, Ressureição, Crime e Castigo, Lorde Jim e Bel-Ami.  Fatalismo, culpa, punição, impotência diante do mal, absurdo, sacrifício, auto-imolação e a mão invisível de um Deus pronto para punir tanto pecadores como santos. Enquanto o marido discutia em um bar Luise Michel e seu papel na Comuna de Paris (um dos poucos autores ‘vermelhos’ que herdei pelos livros terem sido salvos do enterro compulsório no quintal de casa quando moravam em Vitória), minha avó esperava o mar subir na cadeira Gild-Holm-Ur vendo o navio se afastar como Gilliat, o herói de Hugo que é capaz de vencer o horror da natureza mas não o de sua solidão.

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O polvo monstruoso  de Os Trabalhadores do Mar

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Hugo passou um período de exílio nas Ilhas do Canal, Jersey e Guernsey…

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…e conviveu muito tempo com os homens do mar

Para ver algumas das pinturas de Vitor Hugo (uma mistura alucinante de expressionismo, abstracionismo, simbolismo e romantismo) visite o site http://bittleston.com/artists/victor_hugo/

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