Quem nasce Caeté, morre Caeté
A frase é de minha mãe, Lúcia Guiomar. Caetés eram os índios que moravam no pedaço de terra e água mais belo do mundo, a costa do que hoje se chama Alagoas. Mar com lagoa, água salobra, lagoa colando com rio e com lagoa e restinga e com o mar de arrecifes; sururu,mandioca, peixe, cheiro de maresia e de cana com resina de manga e caju e jaqueira. Se aliaram aos holandeses e foram todos mortos. Mas ancestralidade é coisa séria, para quem assim acredita.

O Guerreiro é um folguedo natalino da região litorânea e da Mata de Alagoas. Mistura de Reisado, com Pastoril, Bumba meu Boi… Quando menina, e depois, caloura na faculdade, ia muito a Bebedouro – um bairro esquecido que lembra o espírito da Cidade Baixa de Salvador. Bebedouro começa no fim ou no começo do Centro de Maceió – em Maceió o fim, o começo e o meio do Centro são bem pequenos. Começa aí e logo, margeando a lagoa e o trilho do trem, a gente vê de um lado redes penduradas, do outro, casebres e logo ali um castelo e mais outro e uma pracinha com igreja. (Bebedouro termina na Chã da Jaqueira; se a gente andar mais dá em Fernão Velho, um distrito com cara de cidade criada pelo Juan Rulfo). Os castelos se tornaram casas de saúde psiquiátricas, o que me dava uma mistura de medo com desejo quando era pequena. (A esposa de um psiquiátra louco de amor sumiu misteriosamente; o médico se isolou no seu castelo-sanatório e todo mundo se benzia quando passava pelo lugar). Outro casarão foi de uma tia-bisavó. Nele, minha babá dizia que havia uma botija que fora perdida por uma escrava ter soltado um nome feio [peste] quando estavam próximos das indicações do sonho que minha parente teve.

Em Bebedouro acho que ainda existe um grupo ativo de Guerreiro, o Treme Terra do Mestre Benon. Eu ia ver no Natal; o Mateu, o Papa-Figo (que em Maceió é nome de bicho papão), os índios, rei e rainha; a dança, a luta de espadas – com um deles sempre se espojando pelo chão – e as embaixadas. Tinha também esquenta mulher, que é um trio formado por triângulo, zabumba e pífano.



Essas fotos são do fotógrafo francês Marcel Gautherot e estão no acervo do Instituto Moreira Sales http://acervos.ims.uol.com.br/php/level.php?lang=pt&component=39&item=16. São de um grupo de Guerreiro e foram tiradas em Alagoas na década de 40 do século passado.

O museu de Antropologia Théo Brandão, da Universidade Federal de Alagoas, faz um trabalho bacana de preservação do acervo cultural do estado, tem indumentárias, iconografia, material audiovisual. Lá tive meu segundo ‘emprego’, pouco antes de vir morar em Salvador: era monitora de Antropologia na UFAL e Bruno, meu professor, conseguiu um trabalho meio período como guia dos estudantes de escolas estaduais. O que eu mais gostava era de tirar o medo que os meninos tinham das estátuas de Exu (com chifres e pinto grande): ‘Não é diabo não, é uma entidade boazinha que ajuda quem acredita e fica levando recado de quem tá aqui pra quem morreu’. Uns acreditavam, a maioria ficava mais desconfiada ainda, mas todos davam um jeito de tocar nas imagens como quem pega em pão quente.
Na década de 90, um amigo de adolescência, Davi Nogueira Gato (caramba, como a gente se perde de tanta gente) arregaçou as mangas e juntou esforços para registrar a música e a poesia de mestres de Reisado e Guerreiro, tocadores de rabeca, pífanos e pandeiro, como Nelson da Rabeca e Mestra Virgínia. O selo Das Lagoas – A atual Música Popular Tradicional de Alagoas, fez, até onde sei, o primeiro e único registro dessa música que é feita para rezar e amar – porque em Alagoas quem tá perto de Deus nunca fica emburrado. Abaixo uma amostra grátis de uma das faixas, um poutpourri de Nelson da Rabeca e de sua senhora Dona Benedita.
http://www.mediafire.com/file/ymzwg5oyhyy/18 poutpourri nelson da rabeca e dona benedita.wma

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